Molécula de veneno de peixe pode ser aliada no tratamento da asma, indica estudo

Proteína com ação anti-inflamatória foi patenteada por cientistas do Butantan e teve resultados promissores contra esclerose múltipla

sáb, 26/08/2023 - 6h08 | Do Portal do Governo
DownloadRenato Rodrigues/Comunicação Butantan
O veneno do peixe niquim é estudado pelo Butantan desde 1996, e a proteína com propriedades anti-inflamatórias foi descoberta em 2007 pelo Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA)

Um peptídeo derivado do veneno do peixe niquim (Thalassophryne nattereri), denominado TnP, apresentou resultados promissores para o tratamento da asma em testes em modelos animais, de acordo com estudo do Instituto Butantan publicado na revista Cells. A asma é a doença respiratória crônica mais comum, afetando 262 milhões de pessoas no mundo e causando 455 mil mortes por ano – a maioria em países de baixa e média renda, com pouco acesso a diagnóstico e tratamento, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A proteína com propriedades anti-inflamatórias, descoberta em 2007 pelo Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA) do Butantan, deu origem a uma série de peptídeos sintéticos produzidos pelo grupo, que foram patenteados no Brasil e em outros 12 países. Desde então, pesquisas conduzidas pela equipe têm apontado a molécula como uma possível candidata para tratar doenças inflamatórias.

No trabalho atual, os cientistas compararam grupos de animais com asma tratados com TnP e com dexametasona, fármaco comumente utilizado para tratar a doença, e animais não tratados. Assim como o tratamento convencional, o TnP reduziu em mais de 60% o número de células totais que causam inflamação e dano tecidual no pulmão. No caso dos eosinófilos, responsáveis pela inflamação em cerca de metade dos pacientes com asma, a redução foi de 100%.

O tratamento com TnP também atenuou a remodelação das vias aéreas, característica que contribui para a redução da função pulmonar e obstrução do fluxo aéreo, e reduziu o muco presente no pulmão. Além disso, não foram identificados efeitos adversos – diferente das terapias convencionais, que podem causar sintomas como taquicardia, agitação, dor de cabeça e tremores musculares.

“Nós submetemos o veneno do peixe a uma cromatografia para identificar peptídeos e testamos várias moléculas. Essas toxinas provocam dor, edema, necrose. Até que chegamos a uma fração de peptídeos que não causava nenhuma ação danosa e isso nos chamou atenção. Esse tipo de descoberta é o outro lado da moeda”, diz a pesquisadora Mônica Lopes-Ferreira, responsável pelo estudo.

O passo seguinte foi fazer o sequenciamento genético do TnP para permitir a produção dos peptídeos sintéticos em laboratório – assim, os pesquisadores não dependem mais da extração do veneno do peixe e podem testar as moléculas sintéticas em diferentes modelos de doenças.

Em estudo pré-clínico anterior, publicado em 2017 na revista PLOS One, a molécula TnP também apresentou potencial contra a esclerose múltipla, atrasando o aparecimento dos sintomas e reduzindo a gravidade da doença em camundongos. A próxima etapa, segundo Mônica, é testar o tratamento em modelos de doenças oculares.

Peptídeo já se mostrou seguro

Para avaliar a toxicidade e segurança do peptídeo TnP, a equipe liderada por Mônica testou a molécula em zebrafish (ou peixe paulistinha), um modelo animal de pesquisa que apresenta 70% de semelhança genética com humanos. Não houve registro de disfunções cardíacas nem problemas neurológicos causados pelo peptídeo.

O veneno do peixe niquim é estudado pelo Butantan desde 1996. Trata-se de um peixe peçonhento brasileiro que predomina nas regiões Norte e Nordeste do país. A espécie costuma se esconder em buracos na areia e é capaz de sobreviver por até 18 horas fora d’água, podendo provocar acidentes graves. O contato com seus espinhos causa dor aguda, sensação de queimação, inchaço e necrose.