USP: Análise da estrutura de proteína contribui para desenvolvimento de vacina contra esquistossomos

Testes estão sendo feitos em camundongos no Instituto de Física de São Carlos

dom, 10/12/2006 - 16h59 | Do Portal do Governo

Pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP estudam os mecanismos de funcionamento da proteína Sm14, uma molécula que gera resposta imune contra a esquistossomose em camundongos e contra fasciolose (doença comum em criações de gado) em ovinos. A obtenção de partes da proteína com o mesmo efeito imunogênico (peptídeos) poderá servir de base para a criação de uma vacina para seres humanos, pesquisada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“A Sm14 é encontrada no Schistosoma mansoni, parasita causador da doença”, explica Richard Charles Garratt, professor do IFSC. “A proteína foi descoberta em testes na Fiocruz, quando verificou-se que um extrato salino do próprio parasita injetado em animais protegia-os da esquistossomose.”

Com base em modelos estruturais da proteína, os pesquisadores do IFSC identificaram as partes da molécula responsáveis por induzir a resposta imune, conhecidas como epitopos. “Quando uma proteína serve como antígeno, apenas algumas regiões específicas geram a resposta imune”, diz o professor. “A partir dos epitopos são sintetizados os peptídeos, moléculas menores com o mesmo efeito protetor.”

Com os peptídeos, é possível pesquisar a ação da Sm14 para gerar a resposta imune. “No desenvolvimento de vacinas humanas, por exemplo, o uso de moléculas menores pode evitar reações adversas com proteínas semelhantes à original no organismo”, diz Garratt. “Os peptídeos também podem ser empregados em kits de diagnóstico para auxiliar nos ensaios de vacinação.”

Vacinas
Garratt ressalta que a Sm14, devido a uma reação cruzada, também possui propriedades imunogênicas contra outro parasita, a Fasciola hepatica. “Ela é a causadora da fascíolose, doença pouco comum em seres humanos mas que prejudica a produção de gado, gerando grande interesse comercial dos países ricos em desenvolver vacinas”, conta.

“A produção da vacina animal pode viabilizar a vacina para a esquistossomose em seres humanos, pois a doença se concentra principalmente em países subdesenvolvidos, desinteressando as indústrias de fármacos.”

De acordo com o professor, a molécula possui a vantagem de poder ser testada nos próprios hospedeiros definitivos do parasita, como vacas e carneiros. “Com isso, haveria menos dúvida em torno dos resultados da vacina, que podem variar quando testados inicialmente em animais de menor porte, como camundongos.”

Testes com a vacina animal estão sendo realizados por uma empresa licenciada pela Fiocruz. “A Sm14 é uma das poucas moléculas com efeito imunizador comprovado contra a esquistossomose”, aponta Garratt.

A médica Miriam Tendler, que coordena as pesquisas sobre a vacina na Fiocruz, relata que a modelagem da Sm 14 foi confirmada por pesquisadores italianos no ano passado. “A vacina veterinária, cujo desenvolvimento se encontra em estágio mais avançado, poderá estar no mercado em um ano, se o resultado dos testes for favorável”, diz. “Paralelamente, os ensaios clínicos da vacina humana podem levar de três a quatro anos, porém esse prazo pode variar, pois não depende apenas do estado da tecnologia.”

Da USP