Trechos da entrevista coletiva do governador Mário Covas após inauguração de escola na Zona Leste

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sáb, 12/08/2000 - 16h43 | Do Portal do Governo

Parte Única

Febem

Repórter: Governador, mais uma rebelião na Febem, mais um problema da Febem, há inclusive uma decisão judicial, em relação à unidade da Febem de Franco da Rocha.

Covas: Tem três unidades em Franco da Rocha.

Repórter: Pois é, mas há uma decisão judicial dando um prazo de 30 dias, para que ali naquela unidade, que exatamente foi a unidade onde houve o conflito ontem, haja a implementação de algumas medidas.

Covas: Por exemplo?

Repórter: Segundo a promotoria, oficinas, socialização dos adolecentes ….

Covas: Olha lá tem escola, professora. Você não tem como obrigar a criança a assistir a aula, isso não tem. Você sabe que ali está o grupo mais problemático da Febem, com cerca de 200 adolescentes. Para se ter uma idéia de como é problemático, isso não começou no dia da rebelião, começou dias antes. Porque dias antes, eles reivindicavam junto ao diretor da unidade, ( e eu tenho um documento aqui assinado pelo diretor), por dois funcionários que acompanharam, antes da rebelião a reivindicação dos meninos era de permitir visita íntima, liberar as drogas e de afastar funcionário. Isso eram as preliminares. A rebelião teve início, mais ou menos às 21h45, na ala D, onde os adolescentes prenderam cinco funcionários no refeitório, colocaram colchões fechando e tocaram fogo. Eles não morreram porque conseguiram arrebentar a janela que vai para o pátio senão, os cinco funcionários tinham morrido. Para a retirada dos funcionários foi necessário a remoção das grades e golpes de marreta, retirando-os pelos vãos das janelas, saindo bastante intoxicados e um deles desmaiados. A Polícia Militar da região foi acionada e chegou imediatamente. O Choque também foi acionado. Estiletaram um vigilante e o jogaram de cima de um telhado, o mesmo encontra-se hospitalizado. Alguns funcionários conseguiram e saíram das alas com medo. Por volta das 24 horas descobriu-se que tinha um adolescente morto e duas horas depois de morto, eles atearam fogo no corpo. Os adolescentes seguros foram trazidos para frente da unidade, transferidos hoje pela manhã para um internato. Durante todo o tempo a direção ficou negociando com os adolescentes a liberação dos reféns. A pauta de reivindicação era não-entrada do Choque, não-entrada dos funcionários da UAP, e eles fariam a limpeza da casa. Na troca de plantão, alguns funcionários se recusaram a entrar, permanecendo os que já estavam, chegando mais longe (inaudível).Os que se recusaram entrar mandei botar na rua. Este é o histórico daquela rebelião.

Repórter: Mas governador esse é um problema que parece estar se tornando crônico. Qual é a solução?

Covas: Não está tornando, ele é crônico. Porque isso não começou no meu governo.

Repórter: O senhor. vê alguma solução?

Covas: A solução? Nós temos 43 unidades. Temos problemas em três. Temos 40 unidades funcionando muito bem. É que as 40 unidades nunca são objetos de verificação. Ninguém vai em ( inaudível ) no Brás, ninguém vai na maioria dos lugares.

Última Parte

Repórter: Para essas três que estão com problema, qual seria a solução?

Covas: A solução é a solução que está em curso. Isso tem que caminhar, mas isso não se faz instantaneamente. Nós hoje temos 12 unidades prontas feitas nesse Governo e três em construção. São 25, em 43 existentes. É mais da metade do que tem. A unidades hoje são unidades diferentes. São unidades para menos crianças. Essas unidades maiores que foram feitas agora abrigaram as crianças que ficavam na Imigrantes. Da quase 1.200 crianças lá na Imigrantes, onde nem (inaudível) não tinha, só tinha uma floresta do lado aberta. E portanto, volta e meia um bando de adolescente resolve correr todo simultaneamente, de forma que entra numa floresta você precisa ir catar ele e depois lá naquele bosque lá, que tem ao lado da Imigrantes. Nós fechamos a Imigrantes e portanto precisamos levar essas pessoas para algum lugar. Aí fizemos duas unidades da Febem em Franco da Rocha, duas ótimas unidades, tão boas quanto custou os Centros de Detenção Provisória. Dois dos quais estão em Osasco, um em Campinas, e um em Vila Prudente. Eu levei lá outro dia o presidente do Tribunal de Justiça. Esses cadeiões tem até como o juízes irem fazer a retirada dos presos lá dentro mesmo. Tem sala de júri, sala de juiz, sala de testemunha…

Repórter: Governador tem acontecido várias medidas tomadas pelo senhor , pelo governo do senhor, com os menores infratores, que tem sido derrubadas depois pela Justiça. Por exemplo, os menores foram para o COC, depois parte deles foi para Casa de Detenção, depois deles serem autuados em flagrante, etc, e a Justiça mandou que eles retornassem para a Febem. Todos os problemas que tem acontecido com a Febem são basicamente com os menores infratores, basicamente os mais perigosos. Está sendo estudado alguma medida em especial em relação a esse número pequeno de adolescente da Febem?

Covas: Escuta, todo mundo raciocina em relação ao adolescente que está na Febem como se fosse uma criança que tivesse tido um tratamento normal, tivesse tido um tratamento pela família, que é onde se educa em primeiro lugar, e que tivesse ido a escola como todos os outros. Não é assim, não. Esse negócio de dizer que a Febem é uma fábrica de criminosos, não é verdadeiro não. Não é verdadeiro. O que nós recebemos é um contingente vindo do Estado todo inteiro de crianças, algumas deixaram de ser crianças há muito tempo, 18 anos. Bom, eu não falo por ouvir. Eu já estive dentro de cada cela da Febem. Já estive inclusive dentro dessas celas dos maiores. Alguns deles têm oito crimes de morte. Isso significa que por isso, devem ser desdenhados, não se deve dar atenção, não? Todo projeto de natureza técnica está montado. E está em curso. Hoje você tem unidades menores, de 60 jovens, e ainda assim eu encontro uma enorme dificuldade para fazer a unidade.

Repórter: Governador, a descentralização com a construção de unidades no Interior não seria uma dessas soluções?

Covas: A descentralização obedece exatamente esse projeto. Porque com a descentralização você pode fazer isso. Fazer unidades menores com 60, 70 crianças, unidades onde você possa ter a decisão a respeito do futuro da criança na hora de ele entrar. Hoje, de qualquer lugar do Estado, mandam aqui para São Paulo crianças. Elas entram na Febem e ficam esperando um período dentro do qual elas têm quer ser julgadas: 45 dias. Daí se for julgada e ficar lá, a ordem que eu recebo é privá-las da liberdade. As pessoas não compreendem isso. Privar da liberdade é trancar em algum lugar. Não tem como privar da liberdade em local aberto. Agora, qual é a razão principal disso? É que a criança, sobretudo o adolescente, não quer ficar lá, como eu não gostaria de ficar. Ele quer a sua liberdade, quer voltar para casa, quer ficar entre os seus, quer cultivar os seus amigos, quer fazer até coisas erradas que já fez, e achou bom fazer. Então isso não se resolve por milagre, não, ou porque se deseja resolver. Vontade política não falta. Só nesse ano, nós investimos em equipamentos para Febem R$ 83 milhões. Aliás um jornal publicou isso hoje. Mas o pessoal não sabe é dos antecedentes. Foi por isso que quando me contaram isso, eu disse: não eu quero isso aqui assinado pelo diretor e por mais dois funcionários que estavam juntos, e escutaram isso. A reivindicação dos meninos é que se facilitasse a entrada de drogas porque eles vinham de unidades onde facilitava. Era que se permitisse a entrada de visitas íntimas, é que deve ficar este funcionário e aquele funcionário não deve ficar. E isso não tem nada a ver com maus tratos, embora tenha gente que faça maus tratos, tanto tem que nós já botamos 632 na rua. Então, o que tinha que ser feito e o que tem que ser feito na Febem, são visitas há uma semana da eleição para verificar todas as unidades da Febem. Mas não irão em todas. Irão nas problemáticas. Então, estou dizendo para vocês que vocês podem esperar uma semana antes da eleição. No mês de setembro, aqui estarão algumas organizações para visitar as unidades da Febem e ouvir cada jovem, cada jovem será ouvido. Naturalmente, os que trabalham lá e para o hospital ontem foi um menino morto e foi morto pelos outros. Todas as mortes ocorridas na Febem no meu governo foram meninos que mataram meninos. Foram jovens que mataram jovens. E algumas vezes mataram de forma cruel. Lá na Imigrantes mataram e cortaram a cabeça do cara. Ontem tocaram fogo no que estava morto.

Repórter: Governador, parar lidar justamente com esses menores, mais violentos, o senhor defende inclusive, alteração legal, governador?

Covas: Não, eu acho que a gente tem que continuar tentando dessa maneira, sim. Eu li que a juíza determinou uma porção de coisas. Quem for visitar Franco da Rocha, e eu fui na semana anterior ao usar aquilo, vê que as instalações são muito boas. Você nunca ouviu um menor reclamar da comida da Febem, nunca. Agora eles não obedecem. Se eles obedecessem: queimou o colchão dormia sem colchão. Não acho que o povo esteja aí pagando para o cara queimar. Ontem queimaram um colchão em cima de um cadáver. Botaram o menino que tinha morrido e botaram um colchão em cima. Isso significa que toda a criança que está na Febem é assim? Mas nós estamos falando de um grupo mais pesado de todos. Não é grupo de 14 anos. Ninguém que fala na Febem pensa na criança de 11, 12 anos. Outro dia eu fui visitar essa área, lá no complexo, tinha um menino de São Vicente que me conhecia de lá, e veio falar comigo. Uma doçura de criança, recuperável, portanto vai na escola, tem interesse em se profissionalizar, cometeu um crime. Ele fala do crime com uma certa naturalidade, por conta dessa coisa que eu chamo de vulgarização da violência. Mas na realidade você vê que é uma criança perfeitamente recuperável mas você entra na cela dos mais velhos. A fotógrafa entrou comigo, e eu fiquei com medo, e tive que mandar ela sair rápido. Está bem qual é a função da sociedade, qual é a função do Estado é tentar ajudar a resolver isso, mas não pensem que isso é falta de vontade política ou profissional de fazer isso. Tem gente ruim na Febem, tem; no funcionalismo, tem; mas tem mais gente boa do que gente ruim. E portanto você precisa separar o joio do trigo. Bom, nós já mandamos 602 pessoas embora. Não foram duas ou três, foram 602. E para mandar a gente tem que fazer processo, sindicância, e na área pública é assim.

CPTM

Repórter: Hoje está sendo divulgado o laudo do acidente da CPTM, a causa principal seria a falha humana. Falha do maquinista. O senhor essa semana teria falado que outras coisas precisavam ser vistas, o senhor, continua pensando desta forma?

Covas: A primeira coisa que precisa ser vista por mim é o relatório, que eu ainda não vi. Eu não sei o que quê disse. O relatório ao qual se faz referência que iria ser anunciado hoje, é o relatório dos engenheiros e técnicos da empresa. Eu não posso nem lhe dizer o resultado do relatório porque ele ia ser de conhecimento público hoje, e portanto eu posso raciocinar com você a partir do instante que eu tomar conhecimento disso. Talvez a tarde depois de anunciado, eu já tenha alguma coisa para te dizer.

Pesquisa

Repórter: Governador, o Instituto Brasmarket publicou hoje uma pesquisa dizendo que o sr. é o terceiro pior governador do país, no que diz respeito a popularidade, o que o sr. tem a dizer sobre isso?

Covas: Bom, está bom. Tem dois piores?

Repórter: Tem.

Covas: Mas, eu não sou, não. Quando eu venho aqui vejo que eu não sou. Eu não me importo muito com o que diz a pesquisa. Quando eu venho aqui eu vejo que não sou. Quando eu saiu na rua e quando qualquer uma de vocês saem comigo nas ruas, vocês vêem que eu não sou.