Trechos da entrevista coletiva do governador Mário Covas após inauguração da Casa de Solidariedade

a2equipe | 4 de setembro de 2000 |

Última Parte

Repórter – Mas não é a resposta que a população quer, não é governador. Como resolver o problema da violência?

Covas – Mas eu estou dizendo. Eu lhe dei 20 razões pelas quais a violência se multiplica. Se você atuar sobre todas elas… Agora virou moda, por exemplo, falar da polícia de Nova Iorque. Que é uma polícia de tolerância zero. Ninguém lembra que o prefeito de Nova Iorque quando assumiu fez uma quadra de basquete em cada vila da cidade. E, portanto, a criançada tem o que fazer, ao invés de ficar na rua se drogando etc.

Repórter – O senhor disse que seria necessário uma casa (da Solidariedade) dessas em cada cidade da Região Metropolitana de São Paulo …

Covas – Uma não, várias.

Repórter – Por que só existem então duas casas da Grande São Paulo. Qual a dificuldade de se implantar outras casas do gênero?

Covas – Dificuldade não existe. Só que precisa ter quem comande isso, precisa ter quem faça em cada cidade. Isso aqui não é coisa feita pelo Estado. O Governo do Estado faz obras ligadas à criança numa outra direção. Isso aqui é uma coisa feita com participação do sociedade através do Fundo Social de Solidariedade do Estado, que é uma coisa que existe independente de recursos do Estado. O Fundo, no meu Governo, funciona com recursos que a Lila consegue dentro da sociedade. E consegue, porque o povo é extremamente solidário. Basta que se ofereça a ele circunstâncias para trabalhar e seriedade no trabalho.

Repórter – Então faltam mais parceiros sociais?

Covas – Não, as empresas dão, é só oferecer e mostrar onde o dinheiro será investido, o cidadão olha e ajuda. A gente consegue ajuda com bastante facilidade, não há rejeição. A Ford acabou de dar um automóvel para esta Casa.

Repórter – Por que então não há parceiros em todas as cidades?

Covas – Porque ela é sozinha. Se você pudesse ajudar, de repente duas pessoas conseguiriam mais.

Repórter – O governo de São Paulo já recebeu a verba destinado ao Estado com relação ao Plano de Segurança Nacional?

Covas – Não, acho que ainda vai demorar…

Repórter – Alguma expectativa?

Covas – Há a promessa de que agora seria possível receber R$ 30 milhões, para aplicação imediata. Provavelmente esse dinheiro a gente vai poder aplicar em coisas fáceis de serem implementadas. Li nos jornais que outra vez vai se exigir resultados concretos, não sei. O que o Estado tem investido em Segurança, em Polícia, em Febem representam quantias que em governo nenhum se aplicou tanto. Portanto, se não terminou a violência, não foi por falta de vontade. A Polícia recebeu muito mais equipamentos para trabalhar do que recebeu antes. É que a violência aumentou muito mais. Então temos este paradoxo: melhorou a Polícia e aumentou a violência. E as pessoas se sentem inseguras.

Repórter – É uma sensação apenas, como disse o secretário Petrelluzzi?

Covas – Não, não é uma sensação apenas. As pessoas tem uma sensação de medo, e medo é uma sensação que não se elimina, a não ser que a própria pessoa elimine. Os números que estou apresentado a você estão entrando por um ouvido e saindo pelo outro. E estou apresentando esses número para mostrar que o que o governo está fazendo é apenas uma obrigação. E por outro lado não me constrange dizer à sociedade o que ela pode fazer também. Acho que tenho por obrigação fazer isso, depois de seis anos de experiência, fazendo o maior esforço nessa direção.

Repórter – A participação da iniciativa privada é fundamental para o desenvolvimento de projetos como este?

Covas – Projetos como esse podem ser feitos também pelo governo, que tem centenas de casas desta ou de outra natureza no Estado inteiro. São programas que faz diretamente com os municípios, na área do idoso, da criança, da complementação da renda familiar, do atendimento a pessoas com problemas de deficiência, ao migrante. E isso é feito diretamente com os municípios, com recursos do governo estadual. Faz-se um convênios através da Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social e o município toca o projeto. Por esse interior afora, projetos como o Guri você vê em grande número de cidades.

Repórter – Nesse frio, governador, há tantas crianças na rua.

Covas – Não se vê tanta criança na rua. Quantas crianças você na rua, aqui numa cidade de 10 milhões de habitantes? Eu recebi um relatório que aliás nem foi feito pelo Estado – foi feito pela Prefeitura – que o número de crianças na rua é de 1.600. Hoje provavelmente com o SOS Criança tem bem menos do que isso.

Repórter – Está mantido aquele debate com o candidato Paulo Maluf?

Covas – Está mantido, dia 2 de outubro.

Repórter – O senhor já conversou com a assessoria, já conversou com ele?

Covas – E eu lá quero conversar com Maluf?

Repórter – Por que?

Covas – Porque em primeiro lugar Maluf não é flor que se cheire e em segundo lugar, nada tenho a aprender com Maluf. Pelo contrário, tenho a desaprender. Não tenho nada a falar com ele. Agora, debater, nós debateremos, dia 2 de outubro. Dia 1º é eleição do primeiro turno. E no segundo turno ele estará até mais folgado, porque ele não vai para o segundo turno e estou até dando mais chances: dia 2, dia 3, dia 4.

Repórter – O senhor disse que não é flor que se cheire. Como assim, governador?

Covas – Você entendeu muito bem, você quer é que eu use algumas palavras contundentes para aparecer na sua manchete. Ele não é flor que se cheire e cada um entenda como quiser.

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