Profissionais de SP serão capacitados em tecnologias de restauração florestal

Mais de 250 técnicos participarão de curso online que os tornará aptos a retransmitir conhecimentos aos produtores

ter, 18/08/2020 - 17h11 | Do Portal do Governo
DownloadDivulgação/Reprodução/Secretaria de Agricultura e Abastecimento

Tem início nesta terça-feira (18) o curso “Restauração Ecológica de Vegetação Nativa”, destinado a capacitar mais de 250 técnicos, sendo mais de 150 da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado, vinculados à Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) e responsáveis pela assistência técnica e extensão rural de São Paulo, e o restante, técnicos da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA) e Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

O conteúdo é restrito aos profissionais, porém sua importância está na possibilidade de ampliação destes conhecimentos, fazendo chegar várias técnicas de restauração ecológica até os produtores rurais das mais diversas regiões do estado, para que possam restaurar as suas áreas, em especial neste momento que começam a ser elaborados e executados os primeiros Planos de Recuperação Ambiental (PRA) previstos pela legislação.

O curso será todo em plataforma digital e irá ocorrer até o dia 24 de setembro, todas as terças e quintas-feiras, com duas horas de duração por dia. Uma das coordenadoras da capacitação, a ecóloga Carolina Alves de Matos, da CDRS, esclarece que estavam previstas atividades práticas, com visitas às áreas, em especial em Pindorama, no Polo Regional Centro-Norte da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), onde foi instalada uma área experimental para capacitação em relação a uma das diretivas do Protocolo Etanol Mais Verde.

A ação tem a parceria da Unica e Orplana, organizações que congregam as usinas de produção de açúcar e etanol, e da Secretaria de Agricultura. “A primeira fase [de 2007 a 2017] teve como foco principal eliminar as queimadas que antecediam o corte da cana-de-açúcar no estado, que deixavam um grande prejuízo ambiental com a poluição do ar. Já esta ação é para atender uma das diretrizes do Protocolo Etanol Mais Verde que prevê a restauração de matas nativas em áreas próprias das usinas e fornecedores de cana signatários do Protocolo”, explica a especialista ambiental.

Especialistas

A atual capacitação contará com a participação de especialistas de renome como: Marina Campos, Vinícius de Zorzi (The Nature Conservancy – TNC); Severino Rodrigo Ribeiro Pinto (Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste – CEPAN); Daniel Luís Mascia Vieira (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia); Roberto Rezende e Pedro Barral de Sá (Iniciativa Verde); Eduardo Malta Campos Filho, Juliano Silva do Nascimento (ISA – Instituto Socioambiental e Iniciativa Caminhos da Semente); Gustavo Rocha, Edézio Miranda, Maxmiller Ferreira (Iniciativa Caminhos da Semente/Agroicone); Alexandre Sampaio e Isabel Schmidt (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Universidade de Brasília); Fernanda Santos Fernandes, Antônio Carlos Cruz Macedo (Secretaria de Agricultura e Abastecimento); e Rafael Barreiro Chaves (Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente).

Serão doze módulos que tratarão de diversos temas: Conceitos técnicos; Biomas, fitofisionomias, situação atual da paisagem no Estado de São Paulo; Diagnóstico da área para escolha do método de restauração mais adequado, restauração ecológica por condução da regeneração natural, enriquecimento, adensamento, nucleação; Plantio de mudas em área total; Semeadura direta para formações florestais; Semeadura direta para formações savânicas e campestres; Modelos com aproveitamento econômico e Sistemas Agro-Florestais; Avaliação da restauração (manejo adaptativo) − protocolos de monitoramento/checklists; Sementes nativas e Redes de sementes; SARE: análise de projetos; Monitoramento dos resultados;  e Como avaliar um projeto de restauração.

No fim, os profissionais estarão aptos a aplicar os conhecimentos adquiridos e propagar as várias técnicas em suas áreas de atuação.

Pesquisas

A fazenda do Polo Regional de Pindorama da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) foi escolhida para instalação de plantio demonstrativo de restauração com espécies nativas devido aos seus vários projetos de sustentabilidade. O projeto foi realizado durante evento regional do Protocolo Etanol Mais Verde em dezembro de 2019.

O sistema de restauração da área destinada ao experimento foi a semeadura direta em área total – manual e mecanizada, com três espécies adaptadas para áreas encharcadas após a gradagem e dessecação do capim.

No total, foram implantadas 49 espécies nativas, mais adubação verde (com feijão-de-porco, feijão-guandu e crotalária) no sistema de “muvuca-de-sementes”, no qual as sementes são misturadas com areia, que é material amorfo, que não deixa as sementes se separarem por tamanho, ficando todas misturadas.

“Na área menor, as sementes foram semeadas a lanço pelos técnicos das usinas e associações de fornecedores de cana signatárias do Protocolo Etanol Mais Verde que participaram da ação e na área maior com equipamento. Esse plantio demonstrativo tem o intuito de fazer um estudo, tirar os resultados, servir de demonstração”, explica Carolina Matos.

A técnica conhecida como “muvuca de sementes”, uma das que será apresentada durante o curso, é ainda pouco difundida, mas tem resultados práticos muito eficientes e é de fácil implantação pois as semeaduras diretas podem ser feitas a lanço ou com equipamentos do próprio uso do agricultor.

“Ele já está acostumado a plantar, só que no caso irá semear árvores e, em breve, terá sua área restaurada. A técnica permite a sucessão ecológica de forma natural, sem grandes intervenções; até mesmo as formigas, uma preocupação constante, são ‘distraídas’ com a adubação verde, uma oferta de alimento, enquanto as plantas vão crescendo e a mata sendo restaurada naturalmente”, salienta Carolina Matos.

Semeadura direta

Para a instalação da área demonstrativa, houve a participação da Iniciativa Caminhos da Semente (Agroicone) que cedeu as sementes e o acompanhamento técnico para instalação do projeto. A iniciativa tem o intuito de ampliar a adoção da semeadura direta como uma técnica efetiva para projetos de restauração de vegetação nativa no Brasil, em especial nos Estados de São Paulo e Mato Grosso.

Segundo Carolina Matos, a técnica, apesar dos benefícios, ainda é pouco utilizada tanto por técnicos quanto por produtores e a instalação de uma área demonstrativa em uma área do estado, irá facilitar o conhecimento e a divulgação.

“Considero de grande importância essa parceria, com a qual está sendo possível associar a experiência da iniciativa privada com o setor público, gerando informações que permitirão repassar aos produtores rurais mais uma forma de restauração e formação florestal, atendendo à legislação ambiental vigente”, afirmou o pesquisador Antonio Lúcio Mello Martins, pesquisador da APTA e diretor do Polo Regional.

A Unidade de Pindorama, desde seus primórdios de criação, teve uma atuação marcante na conservação de solos e florestas, adubação orgânica de cafezais e a preocupação de manter mais de 20% da sua área total com a vegetação natural, tanto que hoje é uma Reserva Biológica.  Quando fomos contatados para essa parceria com a extensão rural e com a Iniciativa Caminhos da Semente, julgamos que esta ação seria mais uma atividade ambiental enriquecedora e apoiamos e colaboramos para que o plantio da área fosse efetivado”, completou.

O pesquisador conta que a área escolhida fica próxima às margens do Rio São Domingos, por ser de fácil acesso para visitações e por representar muito bem áreas similares que serão encontradas pelos produtores locais.

“Há pouca interferência durante o estabelecimento e o desenvolvimento, que vem sendo acompanhado por meio de técnicas definidas, gerando informações e levantando possíveis problemas que eventualmente surjam, de forma a repassar ao setor essas informações que, sem dúvida, serão muito úteis na restauração florestal de várias áreas”, finaliza Martins.