Íntegra da entrevista coletiva concedida no Incor, pelos médicos David Uip e Whady Hueb, que integra

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qui, 01/03/2001 - 18h40 | Do Portal do Governo


Íntegra da entrevista coletiva concedida pelos médicos David Uip (infectologista) e Wadhy Hueb (cardiologista), após divulgação do boletim médico nº 5

David Uip – Atualizando, o governador, a partir de ontem à tarde, apresentou um quadro de desconforto respiratório e, no começo da noite, foi diagnosticado o edema agudo do pulmão. O doutor Whady é um dos dois cardiologistas responsáveis. Ele e o doutor Giovani Belotti. Então o doutor Whady seguramente vai explicar a vocês o que aconteceu do ponto de vista do edema de pulmão. As medidas terapêuticas e a oxigenioterapia foram adotadas e o governador teve uma melhora. Uma melhora não total, mas uma melhora do quadro. Isso é o fato novo em relação a ontem.

Pergunta – Doutor, qual é a procedência desse edema de pulmão? É decorrente do quê? Essa oxigenioterapia é aquela máscara?

David Uip – Eu vou pedir para o doutor Whady explicar como acontece porque eu acho que vai ser mais fácil vocês entenderem o fato e o que vai acontecer a partir desse diagnóstico.

Whady Hueb – Bem, o edema agudo de pulmão é uma conseqüência de uma falência momentânea do coração e que resulta na quantidade exagerada de líquido no pulmão. Corrigindo essa falência e tomando medidas adequadas esse processo é totalmente resolvido.

Pergunta – Foi resolvido?

Whady Hueb – Foi resolvido.

Pergunta – Qual o tratamento?

Whady Hueb – Tratamento medicamentoso. Existe medicamentos que dão suporte circulatório e suporte de retirada de líquido do pulmão.

Pergunta – A capacidade respiratória está mantida?

Whady Hueb – Além dessa quantidade de líquido no pulmão, ele sente necessidade de respirar. E há uma máscara de oxigênio no local que foi suficiente para resolver o processo.

Pergunta – Ele ainda está com a máscara?

Whady Hueb – Não, só no momento da instalação do edema agudo. Como é agudo…

Pergunta – É uma insuficiência cardíaca?

Whady Hueb – Isso.

Pergunta – Foi corrigida?

Whady Hueb – Foi corrigida.

Pergunta – Que horas foi isso?

Whady Hueb – Em torno de meia-noite, mais ou menos.

Pergunta – Quanto tempo ele usou a máscara?

Whady Hueb – O período necessário.

Pergunta – Horas?

Whady Hueb – O período necessário. Ninguém vai ficar olhando no relógio para saber quanto tempo.

Pergunta – Mais de uma hora?

Whady Hueb – O período necessário.

Pergunta – O boletim diz que tanto a insuficiência respiratória quanto o edema foram parcialmente controlados. O que quer dizer isso?

Whady Hueb – Parcialmente. Veja, parcialmente controlados.

Pergunta – Doutor David, o que significa parcialmente controlado?

David Uip – Significa apenas que ele ainda precisa ser oxigenado. Então tem momentos que ainda nós estamos usando o catéter e a máscara de oxigênio. Não dá para ter um dado exato porque todo o líquido a mais que foi acumulado já foi retirado. Então, em alguns momentos, nós precisamos usar o catéter e a máscara. É por isso que o doutor Whady falou que o quadro agudo foi resolvido parcialmente porque ele ainda necessita de oxigenação.

Pergunta – A capacidade respiratória, apesar de controlado o edema agudo, está normal?

David Uip – Voltou à condição pré-edema agudo mas tem momentos que ele precisa da máscara e do catéter de oxigênio.

Pergunta – E isso acontece ainda?

David Uip – Eventualmente. Cada vez acontece menos, mas ainda acontece.

Pergunta – A situação de infecção generalizada, a trombose e também os coágulos, continua esse estado?

David Uip – Ele tem um processo instável. Como eu disse a vocês, não dá para raciocinar por pedaços. Então, tudo isso é um conjunto. Ontem, quando nós conversamos, ele não tinha edema de pulmão. Ele tinha uma respiração de oxigênio normal e depois de algumas horas esses estados aconteceram. A impressão que nós temos é que as coisas são assim mesmo. Então, tem uns momentos que algumas coisas estão sob controle e acontecem outras. Próprias de doente grave.

Pergunta – Aquilo que ele vinha apresentando continua? A infecção está controlada?

David Uip – Em medicina não tem matemática. Ninguém controla do ponto de vista de cura um processo infeccioso desse em cinco dias. Ele está em tratamento, ele apresenta alguns sinais de resposta ao tratamento, mas eu acho que a situação ainda é assim: ainda instável e com acontecimentos como o que aconteceu ontem.

Pergunta – O edema é conseqüência da infecção ou não tem nada a ver?

David Uip – Tudo faz parte. O coração faz parte, a infecção faz parte, o pulmão faz parte, o edema da perna faz parte. Porque você mobiliza líquidos, então tudo isso faz parte. Nós falamos ontem que ele teve uma diminuição do débito urinário. Nós tivemos que repor. Então, toda essa manipulação culmina com essa possibilidade de edema o pulmão.

Pergunta – Esse passa a ser o maior problema do governador?

David Uip – Eu diria que é o mesmo problema de ontem.

Pergunta – E o catéter, ele chegou a ser entubado?

David Uip – Não. O catéter é um catéter mesmo. A máscara é uma máscara. Em momento algum ele foi entubado.

Pergunta – Esse quadro que o governador apresenta agora … inaudível.

David Uip – Não. Isso foi um evento momentâneo que foi em parte ultrapassado. O rim, por exemplo, continua funcionando normal. O intestino continua não funcionando. O governador alterna momentos de sonolência com lucidez total. Então, a função pulmonar – a despeito dele eventualmente precisar do catéter e do oxigênio – está igual ao pré-edema de pulmão.

Pergunta – E a respeito do coração, dos batimentos cardíacos dele?

Whady Hueb – O coração dele é um coração operado. Isso é do conhecimento de vocês. Ele já sofreu enfarte no passado, ele recebeu pontes de safena também no passado, recebeu recentemente angioplastia. Enfim, é um coração que não se pode considerar um coração normal. Mas ele vem tolerando todas as condições adversas que ele recebeu todos esses anos mais recentes. Portanto, uma falência momentânea não significa um desastre. Significou um momento de falência e o pulmão dele não tolerou e agudamente ele ficou encharcado de líquido. Foi resolvido de uma maneira habitual dentro do que a medicina tem o poder de resolver.

Pergunta – A gente estava falando da capacidade respiratória do governador. Disse que voltou ao pré-edema.

David Uip – Mas precisa ser usado eventualmente catéter e máscara.

Pergunta – De quanto é essa capacidade de respiração? Oitenta por cento?

David Uip – Aí é um detalhe técnico. Nós não vamos discutir detalhes técnicos.

Pergunta – O senhor diria que o quadro dele é melhor ou pior do que ontem?

David Uip – Eu diria que teve um agravante, que foi o edema do pulmão. Isto foi um agravante e é assim que funciona. Eu quero repetir para vocês que doente grave tem altos e baixos. Então, faz parte do quadro de doente grave essas coisas. Tem edema do pulmão, você vai atrás e tenta resolver. Resolve-se. Eventualmente vão acontecer outras complicações e é por isso que ele está num hospital que tem recursos. Embora ele esteja no quarto esse quarto está equipado como se fosse um quarto de terapia intensiva. Inclusive nós estamos com médicos intensivistas 24 horas do lado dele. Isso foi adotado a partir de ontem porque o processo que o doutor Whady falou é um processo agudo que necessitou a intervenção aguda de toda uma equipe. Então, além da equipe habitual que acompanha o governador, existe a equipe de intensivistas do Instituto do Coração, que se faz rodízios e está dando assistência intraquarto para ele.

Pergunta – A prioridade agora é monitorar o coração? Os rins voltarem a funcionar? Qual é a prioridade?

David Uip – Os rins estão funcionando normalmente. Não existe prioridade. A prioridade é um conjunto. O doutor Raul (Raul Cutait, cirurgião do aparelho digestivo) falou ontem e eu reafirmo hoje, a prioridade é ter todas as condições para manter o governador vivo.

Pergunta – Por que não se consegue desobstruir o intestino?

David Uip – O doutor Raul Cutait falou, vou entrar na área dele, mas a prioridade neste momento é acertar as condições hemodinâmicas do governador. Acertar a parte respiratória, que foi um evento agudo. Acertar a parte de infecção que vem ocorrendo. Acertar tromboses venosas profundas. Talvez, no momento oportuno, vai ser cogitado resolver o problema de obstrução. Digamos, para expor bem claro, digamos que isto implicaria numa atitude cirúrgica. Esse não é o momento porque o governador não em condições clínicas para ser operado. Então não dá para cogitar em resolver uma coisa se você não tem o meio.

Pergunta – Ontem o governador estava alternando momentos de lucidez e sonolência. Nas últimas horas como é que ele anda?

David Uip – Exatamente igual.

Pergunta – De maneira geral, o quadro infeccioso já regrediu um pouco?

David Uip – A avaliação da infecção nesse momento é subjetivo. Não tem nenhum dado objetivo que possa precisar, que defina se ele chegou num nível que nós esperamos. Minha opinião pessoal é que o quadro está melhor do que no início. Mas eu não posso dizer que está controlado. Nem tem medida para isso.

Pergunta – Essa falência transitória no coração pode significar que o quadro infeccioso piorou?

David Uip – Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Pergunta – O que a literatura médica tem a dizer a respeito de quadros como o do governador?

David Uip – Vou te contar uma coisa. Todos nós aqui estamos absolutamente atualizados sobre a literatura. Então nós não vamos ficar dando referências bibliográficas do que se fazer.

Pergunta – Mas o que acontece, por exemplo…

David Uip – É o que o doutor Whady falou. É o que é feito. Quando você tem o procedimento médico, você une duas coisas. Primeiro o que você estuda na literatura, depois a sua vivência. É isso que foi feito.

Pergunta – O que é uma falência transitória do coração? Ele bateu menos?

Whady Hueb – Veja bem, uma falência transitória do coração é quando há uma sobrecarga acima da capacidade dele responder a essa sobrecarga. Há alguma sobrecarga de volume e essa sobrecarga motivou o edema de pulmão.
Corrigido o edema pulmonar tudo volta a condição inicial.

Pergunta – O coração tem sobrecarga e…

Whady Hueb – Você tem um quadro sistêmico de uma doença. Ele está fragilizado. É uma pessoa que está acamada. Portanto qualquer sobrecarga por menor que seja compromete um equilíbrio que já está instável.

Pergunta – O que é essa sobrecarga? O coração bateu mais ou bateu menos?

Whady Hueb – Isso é irrelevante.

Pergunta – Mas o que é essa sobrecarga que o senhor falou?

Whady Hueb – Sobrecarga de trabalho. Se você correr daqui até o Instituto da Criança há 150 por hora, você entra em edema agudo do pulmão. E o seu coração é saudável.

Pergunta – Ontem o senhor disse que o governador poderia receber visitas e essa era uma decisão da família. Isso se mantém.

David Uip – A decisão é da família. A condição ontem não permitia que ele recebesse visitas. No meio de um edema de pulmão ou de um desconforto respiratório, as medidas que são adotadas implicam numa porção de coisas. Naquele momento, no momento de atuar agudamente como nós tivemos que atuar, é claro que não. No que ele volte ao basal dele, é uma decisão dele e da família.

Pergunta – Doutor, esse edema agudo foi uma situação de emergência? É irreversível?

David Uip – A palavra irreversível é uma palavra forte. Entenda uma coisa, doente grave se encontra num ambiente desses porque existem intercorrências. Então você tem que estar preparado para essas intercorrências. É grave, mas nem se imaginou em irreversibilidades. Isso nem foi cogitado.

Pergunta – Essa retenção hídrica dos pulmões. O que está levando a isso?

David Uip – É um conjunto de fatos

Whady Hueb – Como eu expliquei para ela, ele é um paciente fragilizado, um paciente acamado, é um paciente com uma doença sistêmica. Essa retenção hídrica é motivada principalmente pelo estado geral dele. Portanto, qualquer sobrecarga em um organismo frágil pode aumentar o trabalho cardíaco e ele momentaneamente se sentir, se posicionar, com baixa capacidade.

Pergunta – Quando ele está em momento absoluto de lucidez, o que ele fala? Do que pergunta? Como está o humor?

David Uip – Normal. Ele fala normalmente, quer estar inteirado a respeito do que está acontecendo. Ele continua tomando conta das coisas dele, pergunta ‘como é que eu estou? Como não estou?’, ‘o que aconteceu?’, participa inclusive das decisões. Nós o informamos de cada procedimento que vai ser realizado. Do tipo, nós vamos colocar máscara, essa máscara é chata. Nós vamos começar a fisioterapia. A fisioterapia trabalha forte com ele. Ele é avisado e participa. E sempre aceita muito
bem e é muito colaborativo.

Pergunta – A equipe médica estuda a possibilidade de transferi-lo para a UTI?

David Uip – Não, a UTI foi transferida para ele.

Whady Hueb – Ele não foi à UTI mas a UTI foi até ele.

David Uip – Em cima do que o doutor Whady falou, eu quero falar uma coisa que acho importante. Nós estamos mantendo exatamente a mesma coisa que nós falamos desde o primeiro momento. Nós estamos mantendo a dignidade do governador e respeitado alguns de seus desejos. É óbvio que ele vai ser assistido nas melhores condições possíveis, mas ele continua sendo respeitado naquilo que preze pela dignidade. Então ele pediu para não ir para um ambiente de UTI. Ele não vai para um ambiente de UTI, ele vai continuar no quarto, só que a UTI foi a ele. Hoje o serviço de informática aqui tem condições de monitorizá-lo. Eu na minha casa, o Whady na dele. Nós estamos informados pelo monitor de tudo o que está acontecendo. Nós estamos informados, estando aqui ou não, 24 horas por dia por monitor. Então, isso está sendo feito dentro do quarto, fora do quarto e nos ambientes onde nós estamos.

Pergunta – O ambiente é mais favorável?

David Uip – É mais favorável. É mais humano.

Pergunta – Para um paciente como o governador Mário Covas existe um momento mais crítico?

David Uip – Eu vou considerar que o momento crítico passou quando ele estiver no Palácio do Governo despachando. Enquanto isso não acontecer, ele vai ser considerado um paciente grave, paciente crítico, paciente com risco. Todas as atenções vão estar em cima dele. Todos os recursos médicos e materiais vão estar disponíveis. Quem trabalha com doente grave tem que saber um conceito primordial: só se sai do risco quando o paciente está em alta, trabalhando normalmente, enquanto isso ele vai ser considerado paciente grave, necessitando de todos os recursos desse hospital.

Pergunta – Existe a possibilidade dele voltar a despachar no Palácio? Existe um prazo, um período…

David Uip – Nós não trabalhamos com prazo e, respondendo, nós também não trabalhamos com futurologia. Falei ontem isso e repito hoje.

Pergunta – Como é que é feito o trabalho de fisioterapia nele?

David Uip – Nós temos um grupo de fisioterapeutas que trabalham na extensão desde mobilização no leito, até trabalho respiratório, imobilização de secreções. É um grupo treinado, preparado para fazer isso.

Pergunta – Que órgãos ou funções estão preservados ainda?

David Uip – A única coisa que não está preservada é o trânsito intestinal. Ele tem uma obstrução clara, por isso ele não se alimenta por boca. Ele tem uma sonda aberta para poupá-lo desse trânsito e ele está sendo alimentado por uma veia, com alimentação parenteral. Fora isso, o rim funciona, o fígado funciona, o coração teve um problema transitório e funciona. O pulmão teve um problema transitório e funciona. O cérebro funciona.

Pergunta – Como está o tratamento da quimioterapia?

David Uip – Adiado. E dá para entender. Como é que se trata um câncer? Com quimioterapia, com imunoterapia, seja lá com que for. Nesse momento o que prevalece é o estado geral clínico. Como é que o doutor Brentani vai fazer uma quimioterapia no meio de um processo infeccioso? A quimioterapia debilita o sistema de defesa, então isso está adiado até que nós consigamos estabilizar.

Pergunta – Mas está sendo monitorado o câncer?

David Uip – Não. Não.

Pergunta – Como é que está a circulação?

David Uip – O membro inferior direito melhorou muito, mas eu não gosto muito de falar de melhora porque dá a impressão que eu estou falando… não, ainda é grave. Tudo ainda está num processo evolutivo.

Pergunta – Ontem o senhor definiu o estado do governador como extremamente grave. Como o senhor define hoje?

David Uip – Exatamente igual.

Pergunta – Qual o estado dele?

David Uip – Extremamente grave.

Pergunta – Ele está sendo sedado?

David Uip – Nós usamos, o Whady depois pode falar disso. É um derivado de morfina que se usa no tratamento de edema de pulmão. Whady, você quer falar sobre isso?

Whady Hueb – Sedação não é o termo correto. Mas digamos que ele está com tranquilizante.

Pergunta – Nos momentos de lucidez nessas últimas horas, o governador reclamou, pediu ou se referiu a alguma coisa?

David Uip – Vocês não vão acreditar. Mas por ele, ele voltava a trabalhar.

Pergunta – Ele falou isso?

David Uip – Sim, ele falou isso. ‘Quando é que eu vou voltar a trabalhar’. Toda hora que ele puder ele vai querer discutir alta. Ele vai querer voltar ao trabalho. Esse é o Mário Covas. Ele fala todo dia: ‘Quando eu vou poder voltar a trabalhar?’.

Pergunta – Depois de passar por essa emergência?

David Uip – Mário Covas é Mário Covas.