Instituto Dante Pazzanese desenvolve coração artificial

Órgão tem vida útil de cinco anos e custa cinco vezes menos que modelos importados

sex, 08/04/2011 - 16h00 | Do Portal do Governo

Até o final do ano, pacientes com problemas graves de coração poderão ser beneficiados com o uso do primeiro coração artificial brasileiro. Trata-se de dispositivo desenvolvido pelo bioengenheiro Aron José Pazin de Andrade e testado, com sucesso, em animais no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Andrade conheceu a tecnologia e sua funcionalidade numa universidade de Houston, no Texas, e a utilizou no seu trabalho de doutorado na Unicamp. Diferentemente do coração artificial norte-americano (concebido para substituir o coração natural), o modelo brasileiro  foi criado para trabalhar como auxiliar do órgão humano.

Em 2002, o dispositivo brasileiro começou a ser testado em bezerros, que passaram por cirurgia simples para implantação abaixo do coração original e do diafragma. Nesses nove anos, o cientista e sua equipe utilizaram as instalações e equipamentos do Centro de Engenharia em Assistência Circulatória do Dante.

O modelo pesa cerca de 400 gramas e é composto de poliuretano e titânio – material biocompatível. Pelos cálculos do cientista, custa de 16% a 20% do produto comercializado nos Estados Unidos, cujo custo vai de 150 mil a 300 mil dólares.

Mais sobrevida

O dispositivo, as técnicas de implante e a assistência pós-operatória foram aperfeiçoadas para manter o animal vivo e saudável. Como o sangue em contato com material sintético cria coágulos que entopem a bomba artificial ou vasos sanguíneos, o estudo incluiu a dosagem de drogas anticoagulantes.

O cientista explica que o produto se adapta facilmente ao animal e a rejeição é controlada: “Após seu uso, observamos a manutenção da pressão arterial e ajustes corretos da pressão cardíaca do animal porque é mantida a frequência do coração natural. Concluímos o estudo. Está tudo perfeito!”. Se o coração artificial falhar, o outro continua funcionando como antes da cirurgia.

A inovação será indicada a doentes com problema grave de coração que possui os dois ventrículos comprometidos. São casos que aguardam na fila a espera de transplante, pois sofrem infarto, problema circulatório e insuficiência cardíaca crônica irreversível. Como o coração é fraco e não bombeia o sangue para os órgãos vitais, o paciente perde peso, falta-lhe fôlego e resistência para atividades do dia-a-dia. Até mesmo uma simples caminhada é difícil.

“O coração artificial salva a pessoa até a chegada do órgão do doador. Sem esse dispositivo, não há chance de sobrevida durante muito tempo”, informa o hematologista e imunologista Ricardo Manrique, especialista na área, que liderou os estudos de coagulação.

A vida útil do coração artificial é de cinco anos, mas o paciente seguramente será transplantado em tempo inferior. O médico Luiz Augusto Pereira, coordenador da Central de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde, informa que hoje existem 115 pessoas na fila para transplante do órgão. Ano passado, 39 pacientes faleceram antes da cirurgia pela falta de doador compatível: “O tempo de espera varia de acordo com a prioridade do caso e compatibilidade do coração a ser recebido. Priorizam-se casos de retransplante ou que utilizam assistência mecânica para manter a atividade cardíaca. No futuro, pacientes com coração artificial também terão prioridade”.

Teste em humanos

O imunologista Manrique diz que o coração artificial assume a função do coração natural: irriga o sangue para o organismo. A circulação passa a funcionar normalmente e o sistema é preparado para receber, futuramente, o órgão transplantado. Após 30 dias, o paciente se recupera e está apto a fazer o transplante. O médico Manrique informa que o Brasil realiza 250 a 300 transplantes de coração por ano.

O dispositivo é conectado no coração natural do paciente. O ventrículo direito bombeia o sangue até o pulmão para oxigená-lo. O ventrículo esquerdo bombeia o sangue para a aorta – artéria que conduz o sangue para nutrir o organismo.

O bioengenheiro Andrade e o cirurgião responsável pela implantação do dispositivo em pacientes (Jarbas Dinkhuysen, chefe dos Transplantes Cardíacos do Pazzanese) já solicitaram ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) autorização para realizar a pesquisa em humanos. A resposta virá após 60 dias de avaliação.

A expectativa é iniciar os estudos até o final do ano. Serão recrutados 10 voluntários com indicação de transplante (atendidos no Dante Pazzanese) para pesquisas que durarão um ou dois anos.

Da Agência Imprensa Oficial