O verão e o dengue

Diário de S. Paulo - Sexta-feira, 14 de novembro de 2003

sex, 14/11/2003 - 14h28 | Do Portal do Governo

* LUIZ JACINTHO DA SILVA

O verão brasileiro tem suas tradições: carnaval, praia, cerveja (com moderação, por favor!) e, sempre que possível, férias. Há quem diga que o país fecha no Natal para somente reabrir após o carnaval. Um exagero, convenhamos.

Há um aspecto do verão que, nos últimos dez anos, vem buscando se firmar como uma tradição: o dengue. A cada um desses anos, o país vem sofrendo epidemias cada vez maiores. Em 1998 foram cerca de 500 mil casos e, em 2002, mais de 700 mil. Junto com o dengue, a morte de pessoas jovens, o sofrimento desnecessário de milhares, tudo isso a um custo alto demais para um país onde o dinheiro para a saúde é limitado.

O dengue não é uma volta ao passado, um retrocesso da saúde pública. Pelo contrário, é o resultado de uma desigualdade social muito contemporânea, fruto do processo econômico vigente no mundo atual. Doença típica das grandes cidades dos países em desenvolvimento, o dengue é hoje um dos principais problemas de saúde pública desses países, sem perspectivas de controle efetivo.

O estado de São Paulo, com seus quase 40 milhões de habitantes, 95% dos quais vivendo em áreas urbanas, apresenta um risco considerável de epidemias, particularmente as regiões metropolitanas da Grande São Paulo, da Baixada Santista e de Campinas. Em 2001 vivemos o nosso pior ano, com pouco mais de 50 mil casos e a ocorrência da doença na capital. Os anos seguintes, 2002 e 2003, mostraram que a tragédia é evitável. São Paulo conseguiu reduzir o número de casos e de óbitos, além de reduzir o número de municípios com ocorrência de dengue.

Motivo para festejar? Em termos. Festejar a redução do número de casos, mas com muita cautela, pois basta um descuido para que a doença retorne com toda a força. Essa a nossa situação à medida que o verão 2003-2004 se aproxima. O controle do dengue é fruto de um esforço coletivo de toda a sociedade. Não somente do poder público, não somente do cidadão individual, mas de todas as organizações, industriais, comerciais, religiosas, desportivas e educativas.

O controle efetivo do dengue somente se dará quando houver uma tomada de consciência coletiva em relação aos grandes riscos que a doença representa. O Brasil gasta próximo de US$ 1 milhão diariamente para controlar a doença, dinheiro esse que seria muito bem recebido em outras áreas do sistema de saúde. Poderíamos introduzir novas vacinas, aumentar a quantidade e variedade de medicamentos fornecidos gratuitamente à população, poderíamos realizar um sem-número de ações necessárias para o sistema de saúde.

Esse é um dinheiro que a sociedade pode acrescentar aos programas sociais sem ter de pagar mais impostos. Basta se engajar ativamente no esforço de controle do dengue. Não somente durante o verão, mas durante todo o ano. O verão, porém, é convidativo às ações associativas, seja um jogo de futebol na praia, seja um desfile de carnaval. Por que não um mutirão contra o dengue?

O Governo estadual lançou, recentemente, um caderno educativo para os escolares da rede estadual de ensino, com seis milhões de exemplares. Está lançado o convite, a quem quer que possa e queira, para reproduzir essa cartilha, criação do Instituto Maurício de Sousa, para outros milhões de crianças deste estado e do restante do país. Está lançado o desafio, não apenas o convite, de serem mais criativos do que o genial Maurício de Sousa e contribuir para a criação de uma consciência coletiva de controle do dengue, um esforço contínuo que possa resultar na efetiva redução dos criadouros do mosquito Aedes aegypti, o transmissor da doença, impedindo, assim, o surgimento de uma nova tradição do verão brasileiro, tradição que não interessa a ninguém.

Programas de interesse social não podem ser efetivos se ficarem restritos ao poder público. Dengue Zero não exige nada do cidadão além de mais atenção com a sua casa, o seu local de trabalho, o seu local de lazer, a sua igreja. Dengue é um problema de todos e, portanto, em todos está a solução.

* Luiz Jacintho da Silva é diretor da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) da Secretaria de Estado da Saúde e professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp