Direção da Nossa Caixa modifica a estratégia para a privatização

Valor Econômico - São Paulo - Quarta-feira, 13 de outubro de 2004

qua, 13/10/2004 - 9h42 | Do Portal do Governo

Cristiane Perini Lucchesi

O modelo de privatização da Nossa Caixa foi revisto e modificado, informou ao Valor o diretor financeiro, Rubens Sardenberg. Na prática, a mudança significa que o governo do Estado de São Paulo vai manter, pelo menos por enquanto, o controle sobre as atividades principais do banco comercial. A privatização vai começar em áreas nas quais a Nossa Caixa não atua, como estratégia de expansão, ou tem pouca expertise.

A lei 10.853, aprovada em 16 de julho de 2001, dava ao governo estadual a autorização para abertura de capital e venda de até 49% das ações da holding da Nossa Caixa. A mesma lei autorizava também a venda ao setor privado de até 51% do capital de cada uma das subsidiárias. Se essa lei fosse seguida à risca, a holding estadual ficaria como uma espécie de casca vazia, sem controle de nenhuma empresa embaixo.

Agora, ‘o governo do Estado resolveu ficar com o banco comercial e com todas as atividades principais desse banco’ – financiamento, cartão de crédito e gerenciamento de recursos de terceiros, afirmou Sardenberg. Serão criadas novas subsidiárias, das quais quatro -previdência privada e seguro de vida, capitalização, demais seguros e consórcio- serão alienadas. ‘Decidimos criar novas empresas em relação às previstas em lei e precisamos da autorização da Assembléia para isso’, explicou Sardenberg.

As ‘parcerias’ com o setor privado, segundo ele, serão para completar a carteira de produtos do banco, ‘explorando a expertise acumulada de gente que está há tempo no ramo.’ As subsidiárias de Previdência Privada e Seguro de Vida e de Capitalização serão as primeiras a irem a leilão, afirmou. O mesmo dono poderá comprar as duas empresas, disse. Na área de outros seguros, a situação ‘é mais complicada’, pois a nova subsidiária a ser vendida pode incluir a Cosesp ou não, afirmou Sardenberg. Não há decisão a respeito.

A idéia de abrir o capital da holding foi mantida. A venda permitida pela lei pode chegar a até 49%, mas, como o banco não precisa de dinheiro e tem baixa alavancagem (índice de Basiléia de 27%), vai vender inicialmente 25% no ano que vem e ‘tirar vantagem da valorização das ações’, afirmou Sardenberg. ‘Vamos deixar tudo pronto para a abertura de capital em 2005 e verificar as condições de mercado’, disse.

A abertura do capital da holding, prevista para acontecer inicialmente em 2001, foi posta várias vezes em banho-maria. Primeiro, a dificuldade foi política e, depois, a situação desfavorável do mercado. Agora, Sardenberg acredita que o projeto vai para a frente. Ele vê o mercado favorável em 2005 e não acredita em empecilhos políticos.

‘O capital aberto é como uma blindagem contra a ingerência política indevida no banco – qualquer projeto tem de passar pelo escrutínio do acionista minoritário, ficando mais difícil a manipulação’, argumentou. Se antecipando à abertura de capital, a Nossa Caixa tem feito apresentações constantes para os analistas de mercado e criou um site de relação com os investidores.

Em amplo processo de reestruturação, a Nossa Caixa vai abrir uma financeira, que vai incorporar o cartão de crédito. ‘Queremos expandir nossa base de operações comerciais sem amarras’, disse. O financiamento ao consumidor junto às lojas é um dos principais focos. O banco vai criar uma DTVM (distribuidora de títulos e valores mobiliários), que vai abarcar a diretoria de gestão de recursos de terceiros. ‘Queremos usar a DTVM para segregar completamente a área de gestão de recursos do banco comercial’, afirmou.

O esforço de ‘modernização’, de acordo com o diretor, incluiu a aplicação de um Plano de Demissão Voluntária (PDV), que custou R$ 120 milhões até agosto com a saída de 1.700 funcionários. O programa foi um dos fatores, além da queda dos juros dos títulos públicos, a reduzir o lucro da instituição financeira para R$ 190 milhões neste ano até agosto, na comparação com os R$ 449 milhões de todo o ano passado. ‘Não foi corte de pessoal. Contratamos outros funcionários para funções mais necessárias’, disse. O projeto da diretoria é rever o plano de aposentadoria dos 12.900 funcionários, de plano de benefício definido para plano de contribuição definida.

As atividades da tesouraria, que antes se restringiam ao gerenciamento do fluxo de caixa com base nas Letras Financeiras do Tesouro, principal ativo da instituição financeira, e ao fornecimento de preço para os tradicionais descontos de duplicatas, conta garantida e capital de giro, estão agora se tornando mais agressivas. ‘Queremos ampliar nossa atuação no câmbio e passar a operar com derivativos’, disse.

A carteira de crédito da Nossa Caixa não passa de R$ 3,847 bilhões, mas os ativos totais são de R$ 29,4 bilhões, a maior parte títulos públicos. A carteira de financiamento ao comércio exterior de prazo de até 360 dias passou do ‘residual’ US$ 1 milhão para US$ 25 milhões. A meta é chegar a US$ 50 milhões até o final do ano. O banco pretende ainda abrir uma subsidiária no exterior, provavelmente em Luxemburgo.

O foco é o atendimento aos clientes do Estado de São Paulo – o governo e prefeituras, a pessoa física, as pequenas e médias empresas e os funcionários públicos municipais e estaduais. Do total de 1,157 milhão de funcionários públicos estaduais, 754.653 são clientes do Santander Banespa até 2007, por força de contrato, enquanto 402.347 são clientes da Nossa Caixa. A expectativa de Sardenberg é de que os funcionários estaduais clientes do Banespa passem para a Nossa Caixa em 2007.