Capela de Portinari é entregue restaurada

Jornal da Tarde - Quinta-feira, 29 de abril de 2004

qui, 29/04/2004 - 10h17 | Do Portal do Governo

A capela, cujas paredes são decoradas por obras-primas do pintor Cândido Portinari, será aberta hoje, em Brodowski. A restauração, patrocinada pelo Pão de Açúcar em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura, encerra os eventos de celebração do centenário do artista, comemorado ano passado

MAURO MUG

As imagens bíblicas têm a fisionomia de pessoas da família e de amigos. O rosto do menino Jesus no colo de Santo Antônio é o do único filho do pintor. O de São Pedro é o do pai. A visitação, painel que lembra o encontro entre Nossa Senhora e Santa Isabel, está representado pela irmã Olga e pela mulher, Maria. As obras-primas, pintadas por Candido Portinari nas paredes da Capela da Nonna, em Brodowski, foram restauradas, juntamente com a capela, e serão entregues hoje, às 20h, em frente à praça que leva o nome do pintor.

A restauração da capela, patrocinada pelo Grupo Pão de Açúcar em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura, encerra os vários eventos de celebração do centenário de nascimento do artista, comemorado em todo o ano passado. Além do filho do pintor, João Cândido, o aposentado Arduíno Heitor Morando, de 66 anos, será um dos destaque da festa. Morando é o único vivo dos seis Meninos de Brodowski que serviram de modelo para Portinari.

Entre 1944 e 1946 os horrores da guerra e a denúncia das atrocidades do nazi-fascismo fizeram Portinari reforçar o caráter social e trágico da sua obra, produzindo as séries Retirantes e Meninos de Brodowski. ‘Além de lavar seus pincéis e fazer compras para a mãe, posei 3 vezes para o Candinho na série dos Meninos’, diz Morando.

A mãe de Morando, Olívia, e a do pintor, Domingas, eram amigas. ‘Elas faziam crochê juntas.’ E o aposentado tem a mesma idade de João Cândido. ‘Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta.’

A origem da capela, conta Morando, é curiosa. ‘A avó Pellegrina, mãe de Batista, pai de Candinho, era uma senhora católica de muita fé, mas pelos problemas de saúde causados pela idade não tinha condições de ir até a Igreja Matriz, em frente da sua casa, para assistir à missa’, conta. ‘Por isso, o neto construiu, no começo de 1941, a capela, ao lado da casa da família.’

Em vez de recorrer às estátuas, Portinari preferiu pintar murais com imagens em tamanho natural nas paredes da capela. São santos da devoção da avó, todos com os rostos de pessoas da família e de amigos. Ao lado do altar, Portinari pintou um vaso vermelho e outro azul com flores, para que a capela permanecesse sempre florida em homenagem aos santos.

A primeira missa na capela foi celebrada em 1º de março de 1941. A partir daí, ficou conhecida como a Capela da Nonna. Hoje, faz parte do acervo do Museu Casa de Portinari. Todos os imóveis onde nasceu e viveu o pintor foram tombados em 1968 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A ação do tempo, somada à fragilidade da estrutura, construída com tijolos e materiais precários, provocou a deformação dos alicerces. Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodowski. Morreu em 6 de fevereiro de 1962, vítima de intoxicação pelas tintas, quando preparava uma grande exposição de 200 obras a convite da prefeitura de Milão.

Museu recebe 4 mil visitas por mês

À sombra de grandes árvores e em meio ao aroma de ciprestes, estudantes fazem lições ou trabalhos escolares nas mesas e bancos de concreto da Praça Candido Portinari, em Brodowski, cidade pacata de 17 mil habitantes, a 337 km de São Paulo. ‘Aqui é mais gostoso do que em casa’, diz Tainá de Almeida Santos, 13 anos, aluna da 7ª série da escola municipal Nair Duarte do Pateo Franzoni, enquanto faz um trabalho da escola. ‘É ao ar livre, bem iluminado, tem mais espaço e é tranqüilo.’

Sua colega de classe Mariela Aparecida da Silva, também de 13, concorda.

‘Além de todas essas vantagens, ficamos em frente ao Museu Casa de Portinari, que não canso de visitar. Ele (Portinari) gostava de pintar crianças.’ Em um dos seus poemas, o pintor explica sua preferência: ‘Sabem porque é que/ eu pinto tanto menino/ em gangorra e balanço?/ Para botá-los no ar,/ feitos anjos.’

As mesas da praça também servem para os alunos de escolas da região e do Sul de Minas que visitam o museu tomarem seus lanches. ‘Todo mês, o local é visitado por cerca de 4 mil estudantes’, diz Angélica Fabbri, diretora do museu. ‘Há 15 anos, iniciamos um trabalho sólido com as escolas para incentivar a pesquisa, preservação e divulgação da obra e da biografia de Portinari.’

O pintor residiu na casa de número 298 da praça até os 15 anos, quando mudou-se para o Rio. O museu preserva, entre outros itens, um cômodo onde Portinari mantinha seu ateliê. Lá, estão seus pincéis, tintas, paletas, espátulas, telas e cavaletes. O museu funciona de terça a domingo, das 9h às 17h, e está localizado na Praça Candido Portinari, 298. O telefone do local é o (16) 3664-4284.