USP: Pesquisa mostra como predadores selecionam roedores silvestres

Foi verificado que predadores maiores se alimentam das presas maiores e vice-versa

qua, 03/03/2004 - 21h22 | Do Portal do Governo

Estudo realizado na Estação Ecológica de Itirapina, na região central do Estado de São Paulo, analisou o comportamento de três espécies de roedores e seus predadores. Em pouco mais de dois anos de trabalho, a bióloga Adriana de Arruda Bueno analisou o rato-do-campo (Calomys tener), o rato-do-mato (Oligoryzomys nigripes) e o rato-de-espinho (Clyomys bishopi), e seus predadores: o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), a coruja suindara (Tyto alba) e a coruja buraqueira (Athene cunicularia).

Em sua dissertação de mestrado, apresentada ao Instituto de Biociências (IB) da USP, Adriana observou que há uma espécie de divisão de recursos entre os predadores, o que diminui a competição pelo alimento. ‘Alguém pode dizer que todos esses predadores se alimentam de ratos, mas cada um seleciona uma espécie diferente’.

A bióloga verificou que os predadores maiores se alimentam das presas maiores e vice-versa. ‘Os grandes precisam de mais energia e, além disso, os predadores menores teriam mais dificuldade para atacar presas maiores’, comenta.

‘Desse modo, o lobo, que tem em média 25 kg, se alimenta mais do rato-de-espinho, que pesa 250 g. Já a coruja suindara, de aproximadamente 370 g, e a buraqueira, que tem em torno de 180 g, baseiam sua dieta no rato-do-campo e no rato-do-mato, que pesam, em média, 10 g cada.’

As corujas, segundo Adriana, se alimentam principalmente de ratos juvenis ou sub-adultos, por eles terem menos experiência e não conhecerem o território. ‘Elas não comem apenas ratos, mesmo que estes representem pouco mais de 80% de sua dieta’, comenta. ‘O lobo-guará, por sua vez, tem uma alimentação bastante diversificada, que inclui até vegetais’.

Seleção de presas

Os predadores, como explica Adriana, não regem sua alimentação pela abundância e, por isso, não podem ser classificados como ‘oportunistas’. ‘Aparentemente, a vulnerabilidade da presa determina se ela será ou não incluída na dieta do predador’, diz a bióloga. Os fatores analisados que influenciam essa vulnerabilidade incluem a capacidade de locomoção das presas, a influência da luminosidade lunar e a audição.

‘Os ratos-do-campo diminuem sua atividade nas fases lunares mais luminosas’, descreve Adriana. ‘Por não serem muito ágeis, procuram evitar encontros com o predador e, para isso, diminuem sua atividade à noite. Mesmo assim, são os mais predados entre os roedores estudados.’

Essa agilidade inclui subir em árvores, saltar, mudar de direção, imprevisibilidade, etc., que prevalece nos chamados ratos-do-mato. Mesmo durante a lua cheia, esse roedor não apresentou diminuição de sua atividade. Quanto à audição, nenhum dos roedores a apresentou muito apurada para detectar o predador. Desse modo, Adriana acredita que eles usem outras táticas, como utilizar tocas e vegetação densa.

Para realizar seus estudos, Adriana capturou e marcou 441 ratos, devolvendo-os posteriormente ao ambiente. A comunidade de pequenos mamíferos era composta por 80% de ratos-do-campo, 12% de ratos-do-mato e apenas 4% de todos os outros pequenos mamíferos existentes na região, incluindo os ratos-de-espinho.

Também foram coletadas 252 amostras fecais de lobos, que continham 163 restos de ratos; 440 pelotas (regurgitos) das suindaras, contendo 1.848 restos deles; e 275 pelotas das buraqueiras, contendo indícios de 89 ratos.

‘Os resultados são específicos para esta região e época, pois a natureza é dinâmica’, ressalta Adriana. ‘Mudando a vegetação, criam-se possibilidades para os roedores se esconderem e, além disso, podem aparecer outros predadores competidores, outras presas, etc.’ De fato, foram encontrados resultados diferentes para estes animais em pesquisas em outros locais, como São Carlos e Itapetininga, segundo ela.

Maurício Kanno – Agência USP