USP: Cientistas reencontram espécie de peixe subterrâneo descrito há 40 anos

Stygichthys typhlopsa, ao contrário do que se pensou, não se trata de um lambari

qua, 23/06/2004 - 19h45 | Do Portal do Governo

A redescoberta de um peixe subterrâneo (Stygichthys typhlops) por cientistas brasileiros em abril deste ano, na região de Jaíba, norte de Minas Gerais, finalmente permitirá que seja feita uma descrição completa e detalhada do animal. Há 40 anos, após receberem um exemplar trazido à superfície durante a abertura de um poço artesiano, dois cientistas norte-americanos o descreveram, com base nesse único indivíduo, e concluíram tratar-se de um lambari.

Porém, pesquisadores do Instituto de Biociências e do Museu de Zoologia, ambos da USP, que conseguiram capturar 25 exemplares do peixe, garantem que, apesar de terem escamas e da semelhança superficial, os animais não têm qualquer parentesco mais próximo com os lambaris. ‘Com essa amostra, será finalmente possível ter uma boa idéia de quem é e como vive essa espécie. Ainda estamos estudando os diversos aspectos da morfologia e do comportamento para termos uma melhor definição’, explica a professora Eleonora Trajano, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB) da USP.

Os exemplares foram localizados em poços artesianos da região, onde o peixe é conhecido popularmente como ‘piabinha cega’. Eleonora conta que, devido a algumas dificuldades, não foram feitas expedições anteriores ao local. Porém, em abril último, os pesquisadores conseguiram encontrar os peixes em duas cisternas.. ‘Esses peixes possuem características de espécies troglóbias (exclusivamente subterrâneas), como a ausência de olhos e de pigmentação, além de outras modificações relacionadas à vida no meio subterrâneo, permanentemente escuro e com escassez de alimento’, explica a pesquisadora. Com quase 20 espécies conhecidas, o Brasil destaca-se mundialmente pela riqueza em peixes troglóbios. ‘A Stygichthys typhlops é uma das mais modificadas e espetaculares entre essas espécies’, diz Eleonora.

Canibal

Um diferencial observado no comportamento do Stygichthys typhlops é que ele possui o hábito do canibalismo (ingestão de indivíduos da mesma espécie). ‘Isto é uma coisa rara em peixes, só registrada anteriormente em quatro das mais de 100 espécies de peixes troglóbios de todo o mundo’, cita a pesquisadora. Segundo ela, o peixe atinge 5 centímetros (cm) de comprimento. ‘O que foi enviado aos EUA tinha apenas 2,5 cm. Um filhote ainda’, lembra.

Ainda este ano, os pesquisadores deverão realizar estudos mais aprofundados sobre Stygichthys typhlops para saber qual seu parente mais próximo entre as espécies de peixes. Em paralelo com a investigação das relações de parentesco desta espécie com os peixes que vivem na superfície, deverão ser estudados o comportamento e aspectos da ecologia.

Os estudos sobre Stygichthys typhlops, segundo a pesquisadora, poderão implicar na revisão das relações de parentesco entre grupos já estudados. ‘O que podemos antecipar é que o animal pertence ao grande grupo brasileiro de peixes de escamas, que inclui, além de lambaris e piabas, as traíras, dourados, piaus, curimatás, pacus, piranhas etc., mas não se encaixa em nenhuma das famílias conhecidas, daí o grande interesse suscitado no meio científico por sua redescoberta ‘.

Quanto ao habitat, os pesquisadores acreditam que o peixe chegou ao subterrâneo após invadir pequenas fendas existentes no calcário localizado abaixo do leito e das margens de um rio local. A pesquisadora alerta que, devido à exigência de drenagem de grandes volumes de água para irrigação que acontece atualmente na região (o Projeto Jaíba de irrigação é um dos maiores da América do Sul), o pequeno peixe pode já estar com sua sobrevivência ameaçada pelo rebaixamento do nível das águas subterrâneas, restringindo seu habitat de forma acelerada.

A expedição, que foi organizada pela professora Eleonora e pelo doutorando Cristiano de Oliveira, contou também com a participação do professor Mário César Cardoso de Pinna e Osvaldo Oyakawa, do Museu de Zoologia, e de Maria Elina Bichuette (pós-doutoranda pelo IBUSP) e Flávio Dias Passos.

Antonio Carlos Quinto – Agência USP