Saúde: Centrinho da USP realiza via SUS 80% dos implantes cocleares do País

Na rede particular de saúde, cirurgia pode custar R$ 80 mil

qui, 08/01/2004 - 10h02 | Do Portal do Governo

Imagine uma pessoa diagnosticada com uma deficiência auditiva grave ou severa a ponto de não poder usar os aparelhos de amplificação sonora comuns. É para esses pacientes que o Hospital de Reabilitação de Anomalias Cranio-Faciais (HRAC / Centrinho), da USP em Bauru, indica o implante coclear multicanal, prótese computadorizada também conhecida como ‘ouvido biônico’.

O implante é formado por componentes internos e externos que substituem o órgão de Corti (órgão sensorial da audição). Os eletrodos do implante estimulam diferentes partes da cóclea (região do Corti), transformando energia sonora em sinais elétricos. Estes sinais são codificados e enviados ao córtex cerebral, o que possibilita ao paciente uma sensação auditiva.

‘Uma das primeiras pacientes que recebeu o implante me disse certa vez que somente conseguiu entender o porquê de um certo passarinho se chamar bem-te-vi após ter feito a cirurgia’, conta a fonoaudióloga Maria Cecília Bevilácqua, do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Centrinho e professora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB).

Desde 1990 foram realizadas no HRAC aproximadamente 400 cirurgias, desde crianças com idade de um ano até em idosos. É um procedimento caro que na rede particular pode chegar a até R$ 80 mil (R$ 60 mil da prótese e R$ 20 mil da cirurgia), sendo que, no Centrinho, são feitos 80% dos implantes cocleares do Brasil via Sistema Único de Saúde (SUS).

A operação é realizada com anestesia geral e dura de duas a três horas. Mas o paciente só passa a ter a sensação auditiva após o período de recuperação, de cerca de 45 dias, quando o implante será ativado. ‘Só então começamos a contar a idade auditiva dele’, explica Maria Cecília Bevilácqua.

De acordo com fonoaudióloga, o aparelho é ligado por meio de um sistema de computação que passa dados e corrente elétrica para o implante. Esses dados precisam ser programados porque o sistema auditivo é individual e os ajustes devem ser feitos um a um. ‘A partir daí o paciente precisará ser acompanhado para aprender o significado dos sons’, conta.

O acompanhamento, segundo a fonoaudióloga, inclui avaliações psicoacústicas e eletrofisiológicas. Em crianças a partir de um ano, é feito a cada dois meses; em adultos, quatro. Gradativamente, o acompanhamento será de duas vezes ao ano para crianças e uma vez ao ano para adultos.

Nesse aspecto, Maria Cecília destaca a importância de uma equipe multiprofissional que auxiliará o paciente na atribuição de significados ao mundo sonoro. Entre os profissionais envolvidos estão fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, assistentes sociais, psicólogos, etc. ‘O Centrinho é um modelo em resultados clínicos, pois realiza acompanhamento clínico em 100% dos casos.’ O Hospital conta atualmente com uma rede informal de cerca de 60 fonoaudiólogos que fazem o acompanhamento de implantados em diversas partes do Brasil.

O implante

‘Infelizmente nem todo surdo pode usar esse implante’, conta Orozimbo Alves da Costa Filho, médico do Centrinho e professor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP. ‘Existem vários graus e tipos de deficiência auditiva e a cirurgia somente é feita segundo um protocolo com critérios que precisam ser observados.’

Costa Filho também explica que uma das diferenças entre o implante e os aparelhos amplificadores comuns – usados pela maioria dos surdos – é que estes últimos não amplificam muito bem as freqüências agudas, onde estão mais de 70% das consoantes. Além disso, o ‘ouvido biônico’ é implantado dentro do ouvido, por meio cirúrgico.

A parte interna do sistema é colocada por trás da orelha (pavilhão auricular), sob a pele. É composta por um magneto, um receptor-estimulador e um cabo com filamento de eletrodos de 22 canais que se estende desde o receptor-estimulador até a cóclea, e mais dois eletrodos de retorno.

A parte externa inclui um processador de fala (cuja tendência é a miniaturização), responsável por selecionar e codificar os sons mais importantes para a sensação auditiva. Há também um microfone, sustentado por uma pequena caixa, adaptada junto à parte posterior do pavilhão auricular que capta o som ambiental. Um pequeno cabo faz a ligação com o processador de fala. Outro componente é a bobina (antena) transmissora e cabos: mantém-se fixa, externamente, sobre o receptor-estimulador interno por meio de 2 magnetos.

Sensação auditiva

O som entra no sistema pelo pequeno microfone retroauricular e é enviado ao processador de fala através do fino cabo que os liga. O processador seleciona e codifica os elementos dos sons. Estes códigos eletrônicos são reenviados pelos finos cabos para o transmissor. A antena transmissora, um anel recoberto de plástico, com cerca de 33 milímetros (mm) de diâmetro, envia os códigos através da pele para o receptor-estimulador através de rádio-freqüência.

O receptor-estimulador contém um circuito integrado que converte os códigos em sinais eletrônicos especiais e os envia pelo filamento de eletrodos, conectados por meio de um fino cabo ao receptor-estimulador. Os sinais eletrônicos codificados são enviados a eletrodos específicos, programados separadamente para transmitir sons que variam em intensidade e freqüência. Estes eletrodos estimulam fibras nervosas específicas que enviam as mensagens ao cérebro. O cérebro recebe os sinais e os intepreta, experimentando-se, então, uma ‘sensação de audição.’

O implante coclear multicanal usado pelo Centrinho é importado dos Estados Unidos, Áustria ou Austrália. É biocompatível (não causa rejeição), além de ser aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) – órgão norte-americano que regulamenta o uso de alimentos e medicamentos – para ser usado também em crianças.

De Valéria Dias, da Agência USP de Notícias

C.C.