Projeto da Unicamp contribui para recuperação de dependentes químicos em Limeira

Fábrica de tijolo 'ecossocial' traz benefício terapêutico aos dependentes e recursos para entidade

qua, 23/07/2003 - 13h45 | Do Portal do Governo

Da Agência Imprensa Oficial e Assessoria de Imprensa da Unicamp


André Bonin é consultor na área de controle ambiental e nunca imaginou que seu projeto desenvolvido em 1994 – quando ainda era aluno de graduação – pudesse ser tão bem aproveitado. Orientado pelo professor Adílson J. Rossini, identificou alternativa para a reutilização da areia preta de fundição na construção civil. A empresa Freios Vargas (atualmente TRW), interessada no projeto, levou o estudante à fábrica para aperfeiçoar a pesquisa. A média de produção de resíduo na empresa é de 800 a 1.000 toneladas/mês.

Ele recebeu uma bolsa de estudos, válida por um ano, por meio de convênio entre o Centro Superior de Educação Tecnológica (Ceset), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e a TRW. Há oito anos, o trabalho foi apresentado no Congresso da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária, realizado em Salvador. Em 1996, foi apresentado no Congresso da Associação de Indústrias de Fundição de Aço.

‘Naquele momento, pouco se falava no assunto’, lembra o orientador Rossini. Ele considera a pesquisa de seu ex-aluno precursora na área, tendo chamado a atenção de pesquisadores para linha de reutilização da areia de fundição, até então descartada no solo. ‘Logo depois da apresentação nos congressos de maior visibilidade da categoria, começaram a surgir estudos a respeito do assunto.’

O projeto ficou guardado na TRW (que tinha alternativas de descarte do material, como um aterro especial), até que, recentemente, um grupo de voluntários da empresa resolveu aplicá-lo numa área que tivesse alcance social. A solução encontrada foi a construção de uma fábrica de tijolos na Comunidade Terapêutica Mais Vida, de Limeira, que trabalha na prevenção e recuperação de dependentes químicos.

Terapia dos tijolos

‘Foi uma grande iniciativa para a entidade’, comenta a administradora Célia Regina Lana. Ela acredita que a fábrica é atividade terapêutica eficiente. Normalmente, os pacientes que buscam o auxílio da entidade são dotados de baixa auto-estima. ‘O trabalho na fábrica faz com que eles se sintam participantes de algo útil’, explica. A comunidade possui guaritas, paredes, bancos, fornos e churrasqueira construídos com o tijolo ecossocial.

Além do benefício terapêutico, a fábrica traz retorno financeiro e auxilia no sustento da entidade, que vive basicamente de parcerias de empresas, da promoção de eventos e de uma parcela do orçamento municipal.

A TRW construiu o barracão onde funciona a fábrica, elevando o padrão de qualidade da entidade com máquinas, que produzem até três mil tijolos por dia. Como os trabalhos estão apenas começando, as máquinas operam com metade da capacidade.

O processo de secagem dos tijolos é diferente do tradicional, que utiliza fornos. Na Mais Vida, a secagem é natural. Dessa forma, os tijolos não apresentam imperfeições e são fabricados uniformemente. A qualidade e uniformidade dimensional representam economia pela redução da espessura da camada de reboco.

Solução viável

Rossini alerta que apesar do projeto ser um bom trabalho de reaproveitamento de resíduos gerados em indústrias de fundição, é específico para a empresa TRW. Outros casos de reutilização devem ser estudados de forma detalhada. ‘A metodologia pode até ser adaptada, mas não generalizada para todos os tipos de areia’. Cada resíduo possui características próprias e a falta de estudo aprofundado pode acarretar danos ao meio ambiente.

André Bonin avaliou a matéria-prima utilizada, a água, a energia e todas as variáveis envolvidas. Em seguida, foi feita a caracterização da areia com base em normas da ABNT.

A próxima etapa foi realizar estudos da composição, recorrendo a inúmeros testes para verificar se a composição técnica seria compatível com a resistência. ‘Neste estágio, o Ceset se transformou num campo de testes. Calçadas e passagens foram feitas com o material desenvolvido’, informa o orientador.

Comunidade Mais Vida

A Comunidade Terapêutica Mais Vida foi criada em 1998 por um grupo de voluntários de Limeira. Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos, e desenvolve trabalho de reinserção social, prevenção e recuperação de alcoólatras e usuários de drogas.

Mantém um grupo de funcionários capacitados em cursos realizados pela Federação Brasileira das Comunidades Terapêuticas (Febract) e dispõe de quatro unidades de atendimento. Além da fábrica de tijolos, os pacientes também têm uma horta e a criam porcos.

A entidade desenvolve as atividades de atendimento geral, apoio às famílias (com reuniões semanais) triagem, encaminhando, tratamento ambulatorial e acompanhamento pós-tratamento. Atualmente, trabalha num projeto para reduzir o custo do tijolo e incrementar a comercialização do produto. O objetivo é ajudar na arrecadação de verbas para a manutenção.

(LRK)