Pesquisa: Duas espécies de tartarugas sofrem desequilíbrio ecológico em reserva

Estudo foi realizado por bióloga da USP

ter, 02/03/2004 - 15h54 | Do Portal do Governo

Uma das primeiras atitudes para evitar que uma população de animais sofra um desequilíbrio ecológico é desenvolver estudos sobre ela. Foi com este intuito que a bióloga Érica Cristina Padovani Haller produziu um dos únicos trabalhos a respeito dos aspectos reprodutivos de duas espécies de tartaruga que habitam a floresta amazônica: a Podocnemis sextuberculata e a Podocnemis unifilis, popularmente conhecidas como pitiú e tracajá, respectivamente.

De acordo com a pesquisadora, estas espécies quase não foram estudadas, e isto já é um motivo de preocupação. Os resultados das pesquisas estão na dissertação Aspectos da biologia reprodutiva de Padocnemis sextuberculata (pitiú) e P. unifilis (tracajá) na região da Reserva Biológica do Rio Trombetas, Pará, defendida pelo Instituto de Biociências (IB) da USP. ‘Para se ter uma noção do contexto, é preciso que seja feita uma comparação com a tartaruga-da-Amazônia, sobre a qual há estudos mais complexos.

A população desta espécie na região está declinando visivelmente, e a tracajá e a pitiú estão sendo predadas tanto quanto ela’, alerta a bióloga.

O estudo foi realizado durante o período de desova, e na reserva os animais protegidos coabitam com cerca de oito mil famílias de quilombolas (os descendentes dos negros dos quilombos) e algumas populações indígenas.

Mais fiscalização

O consumo de ovos e de carne de tartaruga é hábito nestas comunidades, que caçam os animais sem nenhum tipo de controle ou preocupação ecológica. Érica conta que concorria com os nativos para chegar às tartarugas e aos ninhos primeiro. ‘A predação desordenada destes quelônios foi uma das maiores dificuldades da pesquisa’, diz.

Uma das conclusões do estudo toca justamente nesta questão. ‘É imperativa a necessidade de aprimorar a fiscalização e encontrar alternativas sociais de modo que os habitantes locais possam diminuir a predação sobre os quelônios’.

Segundo a pesquisadora, a construção de criadouros é uma das possibilidades mais viáveis. Com eles seria possível que a comunidade local continuasse com a exploração das tartarugas, porém de maneira sustentável e mais benéfica a todos.

Iniciativas deste tipo esbarram, entretanto, em problemas de infra-estrutura. ‘Só chegar, falar e ir embora é fácil, mas não adianta. É necessário ter um programa contínuo junto às comunidades da região’, recomenda Érica.

No estudo, Érica também chegou a outras conclusões que podem ajudar na preservação da tracajá e da pitiú. Ela registrou, por exemplo, o comportamento de nidificação (feitura do ninho) das duas espécies e demonstrou haver uma correlação significativa entre o comprimento da carapaça de fêmeas de Podocnemis sextuberculata e número, peso e volume dos ovos da ninhada.

Da Agência USP de Notícia

André Benevides

L.S.