Especial do D.O.: Problemas vocais atingem 60% dos professores em São Paulo

É a principal causa de afastamento de docentes na rede de ensino público

ter, 25/11/2003 - 14h03 | Do Portal do Governo

A voz pode revelar idade, sexo, procedência geográfica, estado emocional e até traços de personalidade de cada indivíduo. Sem ela, 40% dos brasileiros não teriam como trabalhar. Segundo a Sociedade Brasileira de Laringologia, só no Estado de São Paulo trabalham 220 mil professores dos quais 60% têm, ou já tiveram, algum tipo de problema vocal de maior ou menor gravidade – e 67,2% nunca receberam orientação sobre como utilizar a voz.

Isso acontece entre os docentes porque eles trabalham em média 30 horas semanais em salas com até 40 alunos. Eles têm, ainda, de superar os ruídos ambientais internos e externos. A principal causa de afastamento de professores na rede de ensino público de São Paulo está relacionada a problemas de voz.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, Apeoesp, fará durante a realização do seu próximo congresso (de 26 a 29 deste mês) uma pesquisa que, entre outras questões, vai investigar problemas de saúde da categoria, em especial problemas vocais.

A voz é para trabalhar

A fonoaudióloga e doutora em distúrbios da comunicação humana, Daniela Maria Cury Ferreira Ruiz, do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – Centrinho, de Bauru é uma grande incentivadora do uso de microfone por professores. “É um instrumento muito importante, pois evita o desgaste excessivo da voz. Para uma classe de 40 alunos, basta uma caixinha de som de 50 centímetros, que não pesa muito, e um microfone com ou sem fio. Isso custa em torno de R$ 200,00. Muitos professores estão comprando o equipamento do próprio bolso para continuar lecionando.”

Preocupada com as estatísticas desfavoráveis, a fonoaudióloga está lançando a campanha ‘A Voz É Para Trabalhar, Não Para Dar Trabalho’. Para dar início ao trabalho estão sendo realizadas palestras gratuitas. Uma ocorreu ontem, dia 24, e a próxima será no 1º de dezembro. ‘Quero propor algo diferente das orientações que as pessoas geralmente recebem. Um exemplo é um exercício, que serve de aquecimento para o professor fazer antes de começar a dar aula. As orientações que passamos valem para qualquer pessoa, mas temos uma preocupação especial com quem dá aulas, mas não educa a própria voz’, explica Daniela.

Não são apenas os que dependem da voz para trabalhar que se prejudicam pelo seu mau uso. Especialistas calculam que até 30% da população apresentam algum tipo de lesão nas cordas vocais. As crianças, por exemplo, apresentam altos índices de calos nas cordas vocais. A má utilização da voz é responsável pela maioria das doenças que atingem o aparelho vocal.

Como um dos piores efeitos, o câncer de laringe surge entre as principais ameaças para a saúde vocal, tendo o Brasil como o segundo colocado do mundo em número de casos, só perdendo para a Espanha. As chances de cura desse tipo de câncer chegam a 95% quando há diagnóstico precoce.

Pesquisa da Unesp

Num universo de 92 profissionais da Rede Estadual de Ensino de Marília entrevistados pela fonoaudióloga Eliana Maria Gradim Fabron, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), 77% queixaram-se de alterações vocais. Para esse estudo, a docente da UNESP ouviu outros 82 profissionais de áreas diversas, que não utilizam a voz como instrumento de trabalho e constatou que, neste grupo, apenas 43% relataram alguma queixa. ‘É freqüente o afastamento de professores da sala de aula em conseqüência do mau uso da voz na fonação’, conta Eliana, afirmando que no grupo dos professores, 15,22% deles já haviam tirado licença médica por até 15 dias.

Quase metade dos docentes entrevistados (42,39%) informaram perder a voz em sala de aula. Outras queixas foram rouquidão (69,58%) e variação da voz no decorrer do dia (61,96%). Apesar do índice elevado de reclamações, o estudo demonstra que eles desconheciam técnicas vocais capazes de prevenir as disfonias funcionais da voz. Em vez disso, afirmaram usar estratégias de higiene vocal, como controlar a intensidade da voz, não gritar ou não tomar gelado, sempre que há algum problema já instalado. Entre eles, apenas 7% usam técnicas de impostação aprendidas com fonoaudiólogo.

Diante de sintomas como irritação, ardor na garganta ou rouquidão, apenas 14,13% dos professores afirmaram procurar atendimento médico para tratamento. No entanto, 43,48% fizeram uso de pastilhas, sprays, antibióticos, antiinflamatórios, gargarejos com limão, mel ou gengibre para aliviar as sensações desagradáveis.

SERVIÇO

Campanha A Voz É Para Trabalhar, Não Para Dar Trabalho
Centrinho/USP – Fone: 14 3235 8437 ou pelo e-mail eventos@centrinho.usp.br.

Andréa Barros
Da Agência Imprensa Oficial

(AM)