Especial D.O.: Curso de prática musical da USP valoriza criatividade de crianças e jovens

Laboratório de ensino musical já atendeu mais de 200 crianças e adolescentes em cinco anos de atividades

qua, 27/10/2004 - 10h05 | Do Portal do Governo

“Faz de novo”, “Repete, por favor”, “De novo logo”, “Vai, toca de novo”. Assim são os pedidos dos pequenos e entusiasmados alunos do Laboratório de Educação Musical da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, enquanto dois professores tocam bloco e caxixi. O exercício é representar, em seus cadernos, o som que estão ouvindo. Cada criança criou sua própria grafia musical.

Depois da tarefa realizada, começa outro problema. Quem irá desenhar seus símbolos na lousa? Então, começa um coro de “Deixa eu!”. Antes de começar o ditado, o professor Pedro Paulo Salles, faz as perguntas fundamentais: “Todo mundo pronto? Todo mundo de orelhas limpas? Cérebros acordados?” E assim começa o desafio do dia: são dois instrumentos sendo tocados juntos. Cada aluno deve criar uma maneira de fazer a marcação correta de tempo, assim como separar o som de cada instrumento e representar os momentos de silêncio. Caxixi, bloco, violão e até mesmo um sino. Todo instrumento é útil para desafiar os alunos.

Os desenhos finais não são nada previsíveis. Arieh Sgafiro Goldstein, por exemplo, faz uma representação relativamente complexa. Exigente, ele pede que o professor desenhe as linhas de pauta (como as do caderno) na lousa. “Ficou maluco. Aqui começa o caxixi e depois aparece o bloco. É, ficou meio maluco, mas ficou legal”, define Arieh, 8 anos, enquanto tenta explicar sua grafia.

Todas as crianças garantem que as aulas são muito divertidas. As atividades que mais gostam são os ditados musicais e aulas onde aprendem a tocar instrumentos. “Eu vivia pedindo para minha mãe deixar eu estudar música e ela descobriu que aqui na ECA tinha. Gosto mais da parte que a gente canta e toca instrumento. Já aprendi a tocar bloco, caxixi e gaita”, lembra Arieh.

Thainá Soares, 9 anos, também gosta dos instrumentos: “Minha mãe que me colocou aqui na aula. O que eu mais gosto é de tocar flauta. Já aprendi várias músicas, tocar os instrumentos e os tempos das músicas. A gente aprendeu a cantar música”. Thiago Pedroso Soares (irmão gêmeo de Thainá, que se orgulha de ser 14 minutos mais velho) conta que gosta das brincadeiras da aula e que já aprendeu a desenhar os sons e tocar “algumas coisas”. Tem planos de ser piloto de corrida ou cientista.

Parte dos alunos é formada por filhos de funcionários e professores da USP, como é o caso de Bianca Teixeira, 12 anos: “Meu pai trabalha aqui na USP. Entrei aqui no começo do ano e até agora está tudo fácil”.

Atualmente, são quatro turmas, com duas horas de aula por semana e mais uma hora de aula prática de instrumento. Entre os pequenos, o assunto é sempre música. Até mesmo os problemas de indisciplina da turminha são relacionados ao tema. Durante a aula, um deles pode decidir tocar flauta; outro pode começar a cantar uma das músicas que costumam ensaiar. O problema é quando todos resolvem acompanhar a cantoria.

“Quero aprender música. O que eu mais gosto é de cantar. Aprendi várias coisas, como escrever músicas e mexer com instrumento”, diz Heloísa Moreno, 9 anos. “A gente aprende, às vezes assim, a tocar instrumentos”, conta Bianca Vieira Martini, 8 anos, que adora o ditado musical. Ligia Gimenes Paschoal, 10 anos, garante que adora tudo no curso e que já tocou violino e flauta transversal.

Guilherme Lús, 9 anos, atravessa a cidade para freqüentar o curso. Morador de Ferraz de Vasconcelos, acorda cedo para chegar no horário. “Hoje eu acordei às 6h03 e cheguei aqui às 8h15. Meu pai e minha mãe me trazem e eu aproveito para dormir no carro”, relata minuciosamente Guilherme, que pretende tocar violino. “Quando eu crescer, pode ser que eu seja um músico e tenha uma banda”, planeja.

Fazer o que gosta – O entusiasmo não é diferente entre os alunos adolescentes. “Aqui me sinto muito bem. O ambiente é legal, as pessoas são legais. É diferente da escola. No curso, eu faço o que eu gosto. Quero ser musicista e estudar violino na faculdade”, declarou Mariana Pilatos Corado, 15 anos, que participa do laboratório há seis anos e estuda violino há oito.

André Sekkel Cerqueira, que tem “quase 18 anos”, diz que tudo que aprendeu de música foi no curso: “É bem legal porque ajuda a aprender melhor, unindo prática e teoria”. Marina Lanner de Moura, 17 anos, que faz o curso desde 1998, diz que suas aulas prediletas são as de flauta, canto e as do professor Pedro Paulo Salles, que é criador e coordenador do projeto.

Durante o curso, os alunos aprendem história da música. A maioria está cursando o ensino médio. Assim, eles unem o que aprendem no curso com o que é estudado na escola, principalmente em disciplinas como História e Literatura. Ao estudar as composições de Monteverdi, por exemplo, são estimulados a pesquisar mitologia para que possam compreender melhor a inspiração do compositor.

Como as aulas são muito práticas, os alunos são freqüentemente convidados a criarem suas próprias músicas. “Ouvimos as composições deles e procuramos trazer compositores semelhantes nas aulas seguintes. Aproveitamos esse trabalho para que eles aprendam mais. Assim mudamos a forma pela qual eles ouvem música. É importante que o conceito fique claro e seja útil. Mesmo numa aula expositiva que conta a história da música, tentamos equilibrar com informações e um uso criativo”, explica Salles.

Em outro exercício, os alunos recebem folhas de papel em branco e jogos de lápis de cor para representarem no papel desenhos inspirados pelos sons que ouvem. Pode ser música clássica ou contemporânea. O importante é ouvir a música com a maior sensibilidade possível.

O professor conta que às vezes são lançadas propostas mais livres: “Mesmo que a criança componha apenas um trecho de uma música com um tambor e um chocalho, passará a ouvir de uma forma diferente outras composições”. Os cursos não têm duração fixa e alguns alunos freqüentam as aulas desde o início das atividades do laboratório.

Alunos e professores – Pedro Salles conta que a idéia de criar o Laboratório de Educação Musical surgiu da necessidade dos alunos de Licenciatura em Música da USP. Os professores que estão sendo formados precisavam de um local para exercitar a prática do ensino. Como coordenador de educação musical da Licenciatura, Salles desenvolveu o projeto que se tornou viável em 1998.

O método adotado pelo laboratório baseia-se nas pesquisas realizadas em conjunto com alunos de graduação da ECA sobre o papel da composição musical. ‘Crianças e jovens são estimulados a criar suas composições e grafias musicais antes de aprenderem a escrita tradicional. A criação é uma forma de os alunos se envolverem com a música e desejarem seu conhecimento, na medida em que são colocadas numa posição criadora e investigativa’, afirma Salles.

“Um dos fatores mais importantes é que não temos preconceito, por exemplo, de achar que a criança não vai gostar de música clássica. Ela compõe, rege, aprende os conceitos e cria sua própria grafia musical. Quando aprende a anotação musical tradicional, já sabe a função”, explica.

Em cinco anos de funcionamento, mais de 200 crianças e adolescentes já passaram pelo laboratório. ‘Mesmo os poucos cursos existentes priorizam a formação de ouvintes, em sua maioria. O LEM realiza um trabalho de longo prazo, busando uma formação musical mais profunda e ampla, inclusive nos aspectos técnicos e profissionalizantes’, conta Salles.

Orquestra e CD – O LEM deve lançar até o final do ano um CD com músicas de alunos entre 7 e 18 anos. Serão gravações de coral e grupos instrumentais, aproveitando o estúdio do Departamento de Música da ECA. É uma excelente oportunidade para os alunos mais antigos do laboratório que estão se profissionalizando e pensam, até, em prestar vestibular em Música. Do CD participarão também os alunos da graduação, que costumam tocar com o coral do LEM.

Até 2005, será formada uma orquestra infanto-juvenil. Os instrumentos serão adquiridos com verba a ser repassada pela Fundação Vitae, uma associação civil sem fins lucrativos que apóia projetos nas áreas de cultura, educação e promoção social. Realiza projetos próprios e financia programas de instituições públicas ou privadas, dando prioridade àqueles que possam servir de modelo a outras organizações.

“Na primeira fase, os alunos ensaiarão com diversos instrumentos. Depois, terão aulas específicas, inclusive de regência, e por fim serão formados a orquestra e também grupos de música de câmara”, conta Salles, que explica que a orquestra e os grupos tocarão não apenas peças de música clássica e contemporânea, mas também composições dos próprios alunos do LEM e do curso de Música da ECA.

SERVIÇO

Os cursos do LEM são abertos a todos os interessados e têm vagas disponíveis para novas turmas. É exigido conhecimento musical prévio dos alunos maiores de 12 anos. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-4005, nos ramais 204 e 211, com Pedro Paulo Salles ou Maura Lucas.

Regina Amábile
Da Agência Imprensa Oficial