Capacitação: Itesp treina líderes comunitárias no Pontal

Oficinas treinam assentadas na busca de desenvolvimento socioeconômico da comunidade

sex, 04/07/2003 - 13h56 | Do Portal do Governo

Da Agência Imprensa Oficial, por Andréa Barros


O Instituto de Terras de São Paulo (Itesp) está desenvolvendo novo programa com as famílias de produtores rurais assentadas no Pontal do Paranapanema. Trata-se do ‘Projeto Tempo de Aprender: Oficinas da Autonomia’. O objetivo é despertar novas lideranças dentro dos assentamentos para que possam, de forma autônoma e organizada, buscar soluções para seus problemas e alternativas de desenvolvimento socioeconômico para as comunidades das quais participam.

Berenice Gomes da Silva, analista de desenvolvimento agrário da Área de Formação e Capacitação do Itesp, acredita que o importante é o efeito multiplicador desse projeto, em que os participantes levam as novas experiências para suas comunidades.

O projeto iniciou-se no Pontal do Paranapanema, pois lá existe a maior concentração de assentamentos rurais do Estado de São Paulo. São 92 com aproximadamente 5 mil famílias.

As oficinas

O programa consiste em desenvolver treinamentos para as mulheres assentadas, com aulas práticas onde elas ‘aprendem fazendo’. ‘As oficinas são importantes pois se configuram como espaço onde elas se reúnem e discutem os problemas da comunidade. Elas acabam descobrindo que os seus problemas são os mesmos das outras.’
O financiamento é do Itesp mas em alguns locais existem parcerias, tanto da comunidade, para ceder o espaço, como das prefeituras, com transporte e alimentação. A maioria dessas oficinas é ministrada por técnicos do próprio Itesp, mas também são contratados alguns profissionais.

Os resultados

Os resultados são concretos. ‘Em 2002 desenvolvemos esse trabalho em 82 dos 92 assentamentos da região. Com isso, envolvemos 250 mulheres diretamente e mais de 1.000 indiretamente.’

De acordo com pesquisa do Itesp, 80% dos participantes promoveram em suas comunidades algum tipo de atividade de reprodução, discussão e reflexão sobre os temas trabalhados e de interesse coletivo. ‘Por exemplo, há mulheres que participaram do projeto e que hoje são agentes de saúde na comunidade, ou até passaram a integrar os Conselhos Municipais’.

Já foi possível identificar também a organização de alguns grupos para o desenvolvimento de trabalhos em conjunto ou parceria. Há, por exemplo, grupos de panificação, de artesanato etc. ‘Às vezes até arrecadam fundos com a venda desses produtos.’

Relatos

Muitas mulheres mencionaram que o mais importante do projeto é que ele contribuiu para que a comunidade se integrasse novamente. ‘O que acontece é que quando eles estão nos acampamentos ainda em processo de luta pela terra, a organização se dá de forma muito intensa. Depois que se conquista a terra, os objetivos se dispersam. A idéia de grupo acaba, cada um vai cuidar do seu lote e os problemas comuns não são resolvidos. Damos incentivo para que elas tomem a frente para a reorganização dessa comunidade.’

Trabalho conjunto em defesa da comunidade

Todo início do ano é feito um planejamento com a elaboração de um calendário para os 12 meses. As dez oficinas seqüenciais e integradas, com carga horária de 16 horas, divididas em dois dias, são ministradas geralmente a cada dois meses.

Segundo Berenice Gomes da Silva, tudo é preparado em conjunto entre as agentes sociais que trabalham nos assentamentos e também com a própria comunidade. ‘É importante que o processo seja construído dessa forma, a partir da realidade delas, para que não se torne algo fora do alcance. Tomamos muita cautela na elaboração do projeto para que ninguém se sinta excluída. Temos o cuidado de pegar o perfil do grupo para saber quais as características das participantes, principalmente o grau de escolaridade. A escolha é feita na própria comunidade. As mulheres assentadas é que indicam aquelas que vão participar do curso’.

As oficinas têm caráter de multiplicação. Todas que participam da atividade assumem o compromisso de estar retransmitindo e socializando as informações que receberam. ‘ Não pretendemos que isso seja obrigatório, mas que sintam que o conhecimento adquirido pode ser transmitido para outras pessoas.’

Os temas

Diversos temas são discutidos, desde gênero e auto-estima, até políticas de saúde e elaboração de pequenos projetos. ‘Essas oficinas visam a capacitar as lideranças para que elas desenvolvam suas habilidades e passem a ocupar os espaços existentes na sociedade. Busca-se, com isso, um sentido de organização, de forma a permitir que elas alcancem autonomia para exercerem sua cidadania’. Os temas mais comuns:

– Gênero e auto-estima
– Comunicação, instrumentos e dinâmicas de grupos
– Formação de lideranças
– Organização popular e participação social
– Políticas de saúde
– Políticas de assistência social e outras políticas
– Pedagogia social
– Formação de associações
– Planejamento participativo
– Elaboração de pequenos projetos