Começa a circular em São Paulo ônibus movido a etanol

20/12/07

O ônibus movido a etanol (álcool hidratado combustível) entrou em operação nesta quinta-feira, 20, no corredor Jabaquara-São Matheus, onde vai circular durante um ano, e atender nove terminais situados em São Paulo, Diadema, São Bernardo do Campo e Santo André.

A solenidade para marcar o início dos testes de demonstração com o veículo, que faz parte do Projeto BEST, aconteceu no Terminal Metropolitano São Bernardo do Campo (rua Domingo Ballotin, s/nº, Centro), com a presença de autoridades e representantes do Cenbio (Centro Nacional de Referência em Biomassa), do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE), da USP, que coordena o projeto. Estarão presentes, ainda, executivos dos oito parceiros do BEST.

A primeira viagem aconteceu num pequeno trecho da rua Domingo Ballotin e contou com a presença do secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella; o professor doutor da USP José Roberto Moreira, presidente do Conselho Gerenciador do Cenbio e principal articulador do BEST; do diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE), José Aquiles Baesso Grimoni; e do presidente da EMTU/SP, José Ignácio Sequeira de Almeida.

O veículo será incorporado à frota da operadora Metra (Sistema Metropolitano de Transporte), indicada pela EMTU/SP (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo), e, posteriormente, por outra operadora indicada pela SPTrans (São Paulo Transporte), que gerencia o transporte de ônibus na capital paulista. No período de teste de demonstração, o ônibus será comparado a um outro do mesmo modelo a diesel.

Os parceiros do Projeto BEST são a BAFF/SEKAB, Copersucar, EMTU/SP, SPTrans, Marcopolo, Petrobras, Scania e Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), com incentivo da União Européia. O investimento no Projeto BEST é da ordem de R$ 1,6 milhão.

O ônibus a etanol é o principal foco do Projeto BEST (BioEthanol for Sustainable Transport ou Bioetanol para o Transporte Sustentável), programa internacional coordenado no Brasil pelo Cenbio. A missão do projeto é sensibilizar o mundo sobre a importância do uso do etanol no transporte público, que reduz em até 90% a emissão de material particulado lançado na atmosfera. 

O Brasil é primeiro país das Américas a ter ônibus movido a etanol em circulação pelo BEST, incentivado pela União Européia. Outras oito cidades da Europa e Ásia participam do programa: Estocolmo (Suécia), Madri e País Basco (Espanha), Roterdam (Holanda), La Spezia (Itália), Somerset (Inglaterra), Nanyang (China) e Dublin (Irlanda).

O professor doutor da USP José Roberto Moreira, presidente do Conselho Gerenciador do Cenbio e principal articulador do BEST, afirma que o momento é muito favorável para o programa no Brasil, porque é uma alternativa para diminuir a poluição das regiões metropolitanas, onde a tecnologia será demonstrada.

A tecnologia está disponível e tecnicamente aperfeiçoada o que é amplamente demonstrado na Suécia, além de existirem antecedentes da iniciativa no Brasil. Houve já uma experiência, há oito anos em São Paulo com veículo movido a etanol, em que os resultados foram excelentes do ponto de vista ambiental, porém modestos do ponto de vista econômico, devido a diferença de preço entre o óleo diesel e o etanol, o que se espera superar com a nova geração do motor e também do aditivo. “Hoje, o óleo diesel custa quase o dobro do etanol e existe a tendência de contínua elevação do preço do petróleo”, diz o professor Moreira.

O papel dos parceiroso BAFF/SEKAB – fornecer o aditivo para o etanol.

o Copersucar - importar da Suécia o primeiro lote de etanol aditivado.

o EMTU/SP e SPTrans - viabilizar os testes de demonstração em uma de suas operadoras.

o Marcopolo - fornecer e montar a carroceria do ônibus para demonstração.

o Petrobras - importar o aditivo misturá-lo ao etanol e distribuir nas operadoras.

o Scania - importar o chassi e o motor.

o Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) - fornecer o etanol para os testes de demonstração.

Motor já respeita normas de poluição de 2009

O motor proposto pela Scania é avançado até para os padrões europeus no quesito poluentes. O motor a ser utilizado em 2008 tem injeção eletrônica, atende rígidas especificações, como a EURO 5 e EEV (Enhanced Environmentally Friendly Vehicles ou Veículos Excepcionalmente Compatíveis com o Meio Ambiente), normas que serão obrigatórias na União Européia só a partir de 2009. A expectativa é de um ganho substancial correspondente à redução das emissões poluentes.

“O motor que será comercializado em 2008 é mais avançado do que o fornecido para os testes de demonstração, que se iniciam em 2007, pois já atende normas européias em vigor atualmente, mesmo sendo uma versão anterior”, diz o pesquisador. O ônibus em testes é equipado com motor de injeção mecânica que atende às especificações EURO 4 – versão que cumpre e supera as exigências do CONAMA P5, do Conselho Nacional do Meio Ambiente, no que diz respeito às emissões de poluentes locais - particulados, óxido de nitrogênio (NOX) e monóxido de carbono (CO).

Para o Cenbio, o uso desta tecnologia é um enorme progresso, uma vez que, no Brasil, os limites de poluição tolerados são mais altos e devem atender apenas às exigências do padrão EURO 3. A expectativa é que essa vantagem e o exemplo do BEST em São Paulo atraiam a atenção de outras regiões do Brasil para o produto. Enquanto isso, a Scania sueca já se prepara para comercializar a versão com motor que respeita o EURO5 e EEV.

Com esses patamares de rigor, estima-se que o veículo reduza em mais de 80% as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global, em 90% de material particulado e em 62% de NOx (óxidos de nitrogênio) e não emita enxofre, responsável pela chuva ácida.

Poucas adaptações - A adaptação do motor diesel para o etanol não requer mudanças significativas. Entre as mudanças estão o aumento na  taxa de compressão 28:1 (nos motores diesel convencionais é de 18:1), alterações na bomba injetora e uso de injetores com maior capacidade volumétrica.

Uso do etanol brasileiro favorece modelo econômicoMais do que estimular o uso do etanol no transporte público, o Projeto BEST avança na discussão sobre o modelo econômico de desenvolvimento que o Brasil busca atualmente. Segundo maior produtor de etanol, atrás apenas dos EUA que extrai o produto do milho, o Brasil tem hoje uma safra de 17,8 bilhões toneladas de etanol e deve chegar a 2012 com 37,5 bilhões, segundo a Unica.

De acordo com a Unica, para cada 300 milhões de toneladas de cana-de-açúcar produzidas no Brasil, criam-se aproximadamente 700 mil postos de trabalho. O estímulo à produção, aumento do consumo e à exportação de etanol podem ajudar na criação de mais empregos no campo e na redução da necessidade que o Brasil tem do petróleo. 

Diante do quadro, somado às vantagens competitivas ambientais, como a redução das emissões dos gases poluentes, o uso do etanol em motores diesel oferece uma série de benefícios e pontos favoráveis ao modelo para o Brasil. São eles: diversificação da matriz energética no setor de transportes, uso de um combustível nacional, infra-estrutura de distribuição compatível com a existente no Brasil e interesse de vários setores do governo em apoiar o produto.

BEST precisa vencer desafios no Brasil

Segundo Moreira, o modelo de transporte público movido a etanol precisa, no entanto, receber incentivos do Poder Público, uma vez que é uma alternativa sustentável. Estudos indicam que o ônibus consome aproximadamente 60% a mais de etanol do que de diesel para percorrer a mesma distância. Mesmo o etanol sendo 50% mais barato que o diesel, as despesas precisam de análise, pois há  a necessidade de acrescentar o custo do aditivo. Por enquanto, a sueca Sekab é a única empresa a produzir aditivo para motor a base de etanol.

O etanol precisa ser aditivado para ser utilizado em motores diesel, pois o combustível não tem propriedade de auto-ignição por compressão, que é a tecnologia do motor diesel. Isto é necessário para que a combustão ocorra mais rapidamente e com maior eficiência energética. O aditivo que proporciona a auto-ignição do etanol também foi aperfeiçoado e hoje chega à terceira geração. Ainda como desafio ao uso do etanol no transporte público, resta a produção do veículo e aditivo no Brasil.

Da USP

(M.C.)